C O T I D I A N O

Na fábrica, pegava a porca, engraxava o parafuso, encaixava ele nela, enroscava os dois até grimpar e dizia com ar satisfeito: Eta parafusinho bem arroxado!
Na hora do almoço, esquentava a marmita atulhada, sentia seu peso, pegava o garfo, comia com a boca cheia e dizia feliz: Eh marmitinha bem comida!
Depois do almoço, palitava os dentes, bebia um bom gole dágua, tomava cafezinho, dava um arroto espaventoso e falava cheio de gases: Ê arrotinho bem puxado!
Ao final do trabalho, ia para o bar, tomava chopinho, comia tremoços, traçava uma cana firme, destrinchava sardinhas, ficava de pileque e balbuciava meio pastoso: Eia ferrinho bem tomado!
Pegava o trem sempre lotado, empurrava daqui, apertava dali, avançava sem querer, descontava do lado, tirava o pé de baixo, reclamava do parceiro e gemia contrariado: Que trenzinho mais desgraçado!
Chegava a casa cheirando a suado, nem queria saber da mulher, os filhos já dormindo, deitava como um porco, roncava feito um urso hibernando e sonhava: Mas que soninho arretado!
A mulher esperava apenas o terceiro ronco, abria a porta, chamava o vizinho, deitava no sofá, arreganhava as pernas, o sarro comia até lá pelas tantas e dizia no fim: Eh maridinho bem corneado!
Bem cedo, acordados, ela fazendo a marmita, a discussão já começava, sua vaca, seu viado, sua piranha, seu filho-da-puta, os filhos chorando, gritando, e os vizinhos pensando: Eta casalzinho mais safado!
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