O MUNDO INTEIRO A SEUS PÉS

Largava do serviço às sete da noite e tomava umas e outras antes de ir para casa. Comia umas sardinhas fritas regadas a chope claro. Sempre com o umbigo encostado ao balcão do bar na rua Miguel Couto.
Chegava a casa lá pelas dez com bafo de anteontem e olhos de groselha. A mulher cheirosa de banho tomado esperava o senhor da casa com a paciência das mulheres de antigamente. A janta no forno, prato arrumado, comia com a rapidez dos coelhos e a boca nervosa dos esfomeados. Alguns arrotos e peças de roupa jogadas no chão do banheiro. As crianças já dormiam, e dormiam cedo, por causa da aula na manhã seguinte. Ele as beijava e se enroscava no corpo da mulher cheirosa de banho tomado. Sua barriga se espalhava um pouco pela cama. Seu bigode fazia comichão na orelha dela. E pelo ar subia um cheiro azedo de sexo, gemido nos vapores do álcool e nas emanações de uma colônia de jasmim.
A mulher sabia que a comida sempre tinha de estar pronta. E o homem apenas desfrutava desse prazer inenarrável que é ter o mundo inteiro aos seus pés.
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