TRÊS BÊBADOS

Argeu, Caburé e Pedro Moranga tinham em comum algumas coisas: trabalhadores rurais, pobreza, calos nas mãos, mocotós inchados e uma verdadeira paixão pela pinga. O trabalho da semana era todo sorvido em goles de branquinha, no mais das vezes sem acompanhamento de tira-gosto, porque o gostoso era o gosto da gostosa. Eta, calibrina boa! Eta, cachacinha dos diabos! Nem davam pro santo: podia faltar pros pecadores.
Invariavelmente chegavam à vila nas minúsculas tardes de sábado, cada um por um caminho: Argeu, dos lados da Fazenda da Liberdade; Caburé, dos lados do Izamor; Pedro Moranga, dos lados da Vala.
Entortavam na camulaia até domingo, cada um atirado em uma calçada: Argeu, em frente à máquina do Elias Penudo; Caburé, diante da venda do Cirilo; Pedro Moranga, próximo ao bar do Manuel Ribeiro. Ou sabe-se lá, onde! Rodizio constante.
Se um moleque implicasse, sempre a mesma resposta: Vai à puta-que-te-pariu! A diferença só na impostação da voz pastosa da bendita.
Nas infindas noites de domingo, cada um pegava o cambaleante caminho de volta – que estrada estreita, sô! -, trocando pernas, cuspindo balebas, chapéu enterrado na cabeça, a sujeira das calçadas nas roupas. Às vezes um saco alvejado às costas com os mantimentos para uma semana de trabalho duro. Às vezes uma leveza no corpo, a cabeça esbarrando no clarão da lua. Às vezes o peso dos séculos sobre os ombros tão doídos, tão banhados de sol…
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