LUGARES DISTANTES

Ando pensando umas coisas cá comigo já há algum tempo. Porque há coisas que vêm de supetão e você tem de pôr pra fora rapidamente, senão dão indigestão. Outras, ao contrário, se insinuam sorrateiramente na gente e ficam encruadas, crescendo devarinho. Penso muito no banheiro, que acho o lugar mais apropriado para isso, principalmente ao tomar banho.

Todos os meus amigos sabem que sempre fui interessado por línguas, não propriamente o órgão do corpo humano, mas o produto de comunicação ali gerado e que faz com que nos entendamos ou desentendamos. Por causa desse meu interesse, que começou bem cedo na minha vida, desisti de um emprego no Banco do Brasil, lá pelo meio dos anos 60, para vir para Niterói estudar Letras.

Assim, sempre as questões da linguagem ficam futucando minha cabeça, sugerindo-me interesses, pesquisas (que quase nunca faço, porque dão um trabalho danado) e curiosidades.

Uma dessas curiosidades é a respeito da noção adverbial de lugar. Se lembrarmos bem das aulas de Português, virão à nossa memória os vocábulos que denotam a noção de lugar, de espaço físico, em relação ao falante: aqui, ali, , acolá, gradativamente do mais perto ao mais longe, e os de uso mais raro atualmente: algures e alhures, que, embora não sejam palavrões, parecem muito. Mais esses dois, por exemplo: perto e longe, que às vezes são exagerados ao dizermos pertíssimo e longíssimo, à semelhança dos adjetivos.

No entanto, a psicologia humana sempre tem necessidades de expressões que ultrapassam o limite do que a norma gramatical prevê. Então o falante lança mão de outros recursos linguísticos e estilísticos para exprimir, com maior ênfase, aquilo que tem em mente.

Com relação à noção de lugar, vejam algumas expressões, às vezes acompanhadas pelo verbo de movimento ir: 1) onde o vento faz a curva – lugar distante, mas que pode ser imaginado a uma boa distância; 2) onde Judas perdeu as botas – esse sim um pouco mais longe que o anterior; 3) lá na Cochinchina – um pouco mais perto que o Japão, mas que é muito longe, convenhamos; 4) no caixa-prego – expressão muito usada no interior até algum tempo atrás, que sempre me pareceu muito bem humorada; 5) pras cucuias – também uma expressão mais antiga e que não nos dava a noção exata do lugar para onde nos mandavam; 6) no meio do inferno –  essa denota lugar nem tão longe assim e de localização certa e sabida; 6) no cu-do-conde – lugar que sempre me pareceu mais distante no tempo do que no espaço; 7) na puta-que-o-pariu – com localização exata para o destinatário da mensagem, tanto longe quanto perto.

Algumas denotam lugares muito próximos, que todos conhecem, mas que são de uma confusão só: a casa da Mãe Joana e a casa de Noca.

Outras expressões há, todavia, que me parecem denotar lugares muito distantes e nem sempre agradáveis. Um deles é a casa do cacete. O outro é pior ainda: é a casa do caralho, às vezes abreviada na forma em frases do tipo: “Vai pro caralho!”. Taí um lugar longe pra car… e que não deve ser nada bom para turismo ou negócio.

Até breve e em algum lugar auspicioso!

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