ESSA NOSSA RICA LÍNGUA (I)

Sempre tive muito interesse pela linguagem popular. Com certeza, porque vim de uma pequena vila do norte do Rio de Janeiro, hoje chamada Carabuçu, mas que já foi Santo Antônio da Liberdade, ou simplesmente Liberdade.

A nossa língua – e penso que quase todas as outras – oferece ao usuário uma infinidade de possibilidades de expressão das coisas que são pensadas ou mentadas por cada um de nós. Os linguistas chamam a essa expressão individual e própria de idioleto. Ao lado disso, cada grupo social, cada região desenvolvem a língua segundo sua índole e sua visão de mundo, caracterizando uma variante geográfica que pode ser um falar, um linguajar ou um dialeto. Tecnicamente não se considera que haja dialetos no português brasileiro, discussão que não cabe aqui.

Todo esse preâmbulo é para reproduzir um e-mail que recebi do amigo Rogério Fernandes, músico dos bons e ótimo papo, acerca da variante nordestina com suas expressões pitorescas, como lhe enviou a concunhada Fernanda, que morou em Natal, “pro mode o serviço do marido dela, o Totonho”, meu conterrâneo. Devo adiantar, e meus conterrâneos hão de confirmar o que digo, que muitas dessas expressões usamos ou usávamos em Carabuçu e, por isso, não me são estranhas. Só para corroborar isso, lembro-me de que, por ocasião de uma pesquisa que fazia a respeito do calango (ou jongo) no município de Trajano de Morais/RJ, pude verificar num livro de Sílvio Romero  (Estudos sobre a poesia popular do Brasil, 1888) que muito do vocabulário e da fraseologia que encontrei nos versos dos jongueiros daquele município estava atestado por esse estudioso em versos colhidos no Nordeste brasileiro, naquela época, o que, inclusive, comprova a permanência de formas linguísticas através dos tempos.

Mesmo que você ache que está um pouco longo, aconselho e a ir até o fim, porque há expressões ótimas. Eis aí.

 

Nordestino não fica solteiro, ele fica solto na bagaceira!
Nordestino não vai com sede ao pote, ele vai com a bexiga lixa!
Nordestino não diz ‘concordo com você’, Ele diz: ‘iiiapoi’ !!!
Nordestino não conserta, ele ‘imenda’!

Nordestino quando se empolga, fica ‘com a mulesta dos cachorro’!
Nordestino não pergunta:  Você viu? Ele diz: Tú vissi?
Nordestino não bate, ele ‘senta-le’ a mãozada!
Nordestino não bebe um drink, ele toma uma!

Nordestino não é sortudo,  ele é cagado!
Nordestino não corre, ele dá uma carreira!
Nordestino não percebe, ele dá fé!
Nordestino não sai apressado, ele sai desembestado, ele sai ‘cum a mulesta’!

Nordestino não folga, ele ‘afroxa’!
Nordestino não dá volta, ele ‘arrudeia’!
Nordestino não espera um minuto, ele espera um pedacinho!
Nordestino não é distraído, ele é avoado, ‘apombaiado’, lesado, ‘abestaiado’!
Nordestino não fica com vergonha, ele fica encabulado, todo errado!
Nordestino não rega as plantas, ele ‘agoa’ as plantas.

Nordestino não joga fora, ele joga no mato!

Nordestino não tem árvore, tem pé-de-pau!
Nordestino não quebra algo, ele tora!
Nordestino não é esperto, ele é desenrolado!
Nordestino não é rico, ele é um cabra estribado!
Nordestino não é homem, ele é macho!
Nordestino não chama ‘seu desalmado’, ele grita ‘infeliz das costa oca!’

Nordestino não fica satisfeito quando come, ele enche o bucho!
Nordestino não dá bronca, dá carão!
Nordestino não fica com raiva, ele ‘pega ar’, ‘istribucha’!
Nordestino não tem diarréia, tem caganeira, e se for grande é de espanada!
Nordestino não tem mau cheiro nas axilas, ele tem suvaqueira!
Nordestino não tem perna fina, ele tem dois cambitos!

Nordestino não é mulherengo, ele é raparigueiro!
Nordestino não se diverte, ele ‘bota pa muê’!
Nordestino  não se dá mal, ele se lasca todinho!
Nordestino quando se espanta não diz: – Xiiii! Ele diz: ‘Viiixi Maria! Aff maria!’
Nordestino não vê coisas do outro mundo, ele vê uns malassombros, umas almas penadas!

Nordestino não é chato, é cabuloso, invocado, intrometido!
Nordestino não pula, dá pinote!
Nordestino não briga, ele ‘dá uns bufete’!
Nordestina não fica grávida, fica buchuda, prenha!
Nordestino não fica bravo, fica ‘com a mulesta’!
Nordestino não é malandro, é cabra de peia, maloqueiro!
Nordestino não fica apaixonado, ele arreia os quatro pneus e estepe, arrasta umas asas!

 

2 comentários sobre “ESSA NOSSA RICA LÍNGUA (I)

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