ESSA NOSSA RICA LÍNGUA (II) – PROVÉRBIOS POPULARES

Dentre os meus interesses, está o gosto pelos ditos ou provérbios populares, tão ao sabor da gente simples do interior que deles faz uso para justificar histórias, pontos de vista ou dar fecho a um pensamento, a um caso. Apesar disso ou, ao contrário, talvez por isso mesmo, podemos encontrá-los transcritos em obras literárias, em letras de música, utilizados pelos mais diversos artistas da palavra.

Durante algum tempo, antes da existência da Internet, comecei a coletar esses ditos populares, com ajuda de amigos e pessoas mais velhas que eu, como meu pai, e pela observação mais atenta do cotidiano e das leituras que fazia. Com isso consegui, à época, catalogar mais de oitocentos deles. Hoje é possível encontrar endereços eletrônicos que remetem ao assunto.

Todos os interessados em cultura popular têm a nítida convicção de que a sabedoria do povo é, na mais das vezes, cristalina, tanto que os provérbios conseguiram, através dos tempos, enfeixar em poucas palavras ensinamentos que demandariam, normalmente, várias páginas de um discurso técnico.

Muitos deles são antiquíssimos, remontam à Roma antiga, ao Portugal medieval. Por esse caráter, alguns são partilhados por outras línguas romanas, como o francês, o espanhol, dentre outras, como já tive oportunidade de constatar. Alguns têm equivalentes em uma versão quase literal de uma língua para outra.

Por outro lado, percebemos que uma ideia contida num provérbio pode aparecer expressa por outras palavras, por outras expressões, com variações até mesmo de caráter geográfico ou social. Vejam esses exemplos:

            Quem não tem competência não se estabelece.

            Quem não tem bunda não senta no morro.

            Quem não tem c… não faz trato com p…   (Desculpem-me o pudor!)

            Quem não tem horta não promete couve.

            Quem não pode com mandinga não carrega patuá.

Podemos perceber, pelo vocabulário contido num provérbio, seu caráter mais antigo ou mais moderno. Comparem-se esses dois exemplos:

            Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.

            Em casa de malandro, vagabundo não pede emprego.

Há aqueles que são frases completas do ponto de vista linguístico, por conter um verbo – frases verbais; outros, no entanto, são frases nominais, que prescindem do verbo. Além dos dois acima, em que o primeiro é uma frase nominal e o segundo uma frase verbal, eis mais dois exemplos:

            Casa de ferreiro, espeto de pau.

            Em festa de jacu, nambu (inhambu) não entra,

Todos eles, no entanto, estão, do ponto de vista significativo, no campo da linguagem metafórica, aquela que prima pelo sentido figurado das palavras. Vale dizer: eles não dizem ipsis litteris aquilo que as palavras significam, mas têm um sentido que, partindo do referencial, ultrapassa esse limite para se aplicar a outros contextos, a outras situações. Quer dizer: neles, não vale o escrito, mas o subentendido, o sugerido.

Vejam, a seguir, uma pequena seleção dentre os mais interessantes.

            A alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo.

            A porta da rua é a serventia da casa.

A situação está de vaca não conhecer bezerro.

Passarinho que come pimenta sabe o cu que tem.

Suspiro de burro não arrebenta estaca.

Mais vale um gosto do que três vinténs.

Malandro demais se atrapalha.

Por causa de um torresmo, perde-se um capado.

Porco gordo e sogro rico só dão lucro quando morrem.

Mais tem Deus a dar, do que o Diabo a tomar.

Varão: manda ele, ela não; varela: manda ele, manda ela; varunca: manda ela, ele nunca.

            Praga de urubu magro não pega em boi gordo.

            Desculpa de peidorreiro é barriga inchada.

            Barata esperta não atravessa galinheiro.

            Ou caga, ou desocupa a moita.

            Deus dá nozes a quem não tem dentes.

Pedra que muito rola não cria limo.

            O burro acostuma-se à cangalha.

            Quando o boi é sonso, a marrada é certa.

            Tanto vai o cântaro à fonte, que um dia quebra.

             

Há alguns anos, ouvi do saudoso professor José Nolasco, do Centro Educacional de Niterói,  outra versão de antigo provérbio, muito criativa e que aprofundava ainda mais o sentido já negativo da versão original. Comparem-se os dois:

                Original: Quem se mistura com porcos farelo come.

                Versão do Nolasco: Quem se mistura com farelo porcos o comam.

Em tom de pilhéria, meu antigo e também saudoso amigo e professor, posteriormente juiz de direito de Bom Jesus do Itabapoana, José Ronaldo Cyrillo, dizia que precisávamos dar um tom mais culto aos provérbios. Então propunha:

            O benévolo caprino abstém-se de balir.

para o conhecidíssimo:

            O bom cabrito não berra.

Na mesma linha:

            Pouco se me dá que azêmola claudique, o que me apraz é vergastá-la.

para:   Não me importa que a mula manque, o que eu quero é rosetar.

Posteriormente, vi esses e outros exemplos em Millôr Fernandes.

A maioria dos provérbios não tem origem atestada; provêm eles desse fundo ancestral de sabedoria popular, através dos tempos. Alguns vêm de textos de fábulas antigas; outros, de histórias bíblicas; alguns mais recentes, frutos da vivência do povo que, anonimamente, cunha uma frase que cai no uso. Todos eles, sem dúvida nenhuma, de um sabor todo especial.

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