ESSA NOSSA RICA LÍNGUA (III) – MATAR NUNCA, MORRER JAMAIS

Temos vários jeitos de morrer, mas popularmente há duas grandes modalidades: morte morrida e morte matada. A primeira forma é aquela natural, quando a vida definha por algum motivo. A segunda é inesperada, vem sem que se espere: uma bala perdida, um acidente de trânsito, um raio, sempre com um agente externo causando o desenlace. No primeiro modelo, também pode ocorrer o inesperado: o cidadão estar vendendo saúde e ter um insulto cerebral ou um descarrego no coração e abotoar o paletó, espichar as canelas.

Com licença da gramática, não prefiro nenhuma das duas, mas não tenho escolha. Só sei que não morrerei das duas formas ao mesmo tempo, o que já é um consolo, porque com pobre tudo acontece para pior. É aquela história do pão com manteiga quando cai no chão: é sempre com a parte da manteiga para baixo.

Nunca tive medo da morte. Nem por isso estou atrás dela, querendo conversa, puxando assunto, ou, como diria uma amiga: caçando enredo. Ela que fique para lá, enquanto vou levando a vida da melhor maneira possível. O prazo que me estabeleci é simplesinho: igual ao da minha bisavó Mariquinha – 102 anos, sem doenças graves.

Como esse assunto, normalmente, repugna nossa índole de sobrevivência, arranjamos diversos modos de expressar sua ocorrência, sem que dela falemos diretamente. Chegar para alguém e dizer de chofre: Fulano morreu! pode causar mais uma morte. Assim procuramos abrandar o verdadeiro sentido da morte, aplicando ao fato palavras e expressões mais suaves, quando não jocosas, a fim de que o momento fatal não tenha o peso descomunal que tem.

Se o padecente for de nossas relações, ele, via de regra, não morre, mas falece, descansa, é chamado por Deus, entrega a alma a Deus, desencarna, vai encontrar o Criador. Se por ele não tivermos muita consideração, o coitado empacota, abotoa, abotoa o paletó, bate a caçoleta, vai para a cidade dos pés juntos, veste a camisa de sete varas, dá com os costados na cerca, come capim pela raiz, canta para subir, veste o paletó de madeira, vai dessa para melhor. Se for do lado de lá, vira presunto, vai para o beleléu, entrega a alma ao Diabo.

O povo brasileiro criou mais dezenas de expressões para significar morrer, que você pode verificar no dicionário.

Dependendo das qualidades pessoais do morto, há sempre a possibilidade de se dizer em adendo: já foi tarde, que o inferno lhe seja pesado. Expressões que já usei para vários políticos, governantes e agora para o pessoal da FEBRABAN. Mas não posso me esquecer do momento em que, há alguns anos, uma colega de trabalho, com o semblante carregado, me comunicou:

– Saint-Clair, o desembargador Camafeu (troquei-lhe o nome, obviamente, que não quero confusão comigo) morreu.

Não pude resistir à tentação e lhe disse:

– Vai me desculpar, mas não posso perder a oportunidade: Antes ele do que eu!

O que, aliás, foi uma rima muito bem feita, em eco, como a verve poética desse povinho brasileiro cunhou. Eu só me apropriei dela, que sou bem vivo para essas coisas!

(PS: O título desta crônica faz referência jocosa à divisa do Marechal Rondon, quando se embrenhou pelo interior do Brasil, com a sua missão indigenista de estender fio de telégrafo: “Matar nunca; morrer, se preciso for!”.)

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4 comentários em “ESSA NOSSA RICA LÍNGUA (III) – MATAR NUNCA, MORRER JAMAIS

  1. Zatonio disse:

    Mestre, 102 anos e torcendo pro Botafogo! Quero não…é sofrimento pra mais de século.

  2. Saint-Clair disse:

    Tudo em prol do reino dos céus, Zé Antonio. O sofrimento enobrece.

  3. Paulo disse:

    Aí, Saint-Clair, o negócio é dizer todo dia para a "dona do vai-num-torna", peraí que ainda não terminei uma coisa! A gente sabe que tem que ir mesmo então prá que a pressa? Ademais, vamos ser justos, tem um bocado de gentes por aí que merecem ir primeiro!

  4. Saint-Clair disse:

    E a relação daqueles merecedores da primazia é grande, de encher laudas e laudas. E, do nosso lado, continuamos recalcitrantes, resistindo a mais não poder, Paulo!

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