ESSA NOSSA RICA LÍNGUA (IV) – LÍNGUA E DEPENDÊNCIA CULTURAL

Durante todo o tempo em que fui professor – e foram vinte e três anos –, sempre procurei levar para meus alunos o valor e a beleza de nossa língua materna, seja mostrando sua origem e história, seja exemplificando com textos literários, desde os mais antigos (Dom Dinis, Pero Meogo, Dom Afonso X, o Sábio) até os mais recentes (Carlos Drummond de Andrade, Paulo Leminski, Chacal), desde os eruditos (Camões, Vieira, João Cabral de Melo Neto) até os populares (Patativa do Assaré, Martinho da Vila, Tom Zé).

É verdade que toda língua serve muito bem ao povo que a usa como meio de comunicação, senão ela seria substituída. O mais comum é que, ao longo do tempo e através das classes sociais que a utilizam, a língua assuma novas e diferentes feições, sempre adaptando-se às necessidades de expressão diante de novos fatos, novas tecnologias, novas situações.

Ora, em termos de tecnologia, sabemos perfeitamente que o Brasil é um país importador, portanto nada mais natural que importe também vocábulos e expressões que designem os novos componentes e modos de emprego de tais inovações. Por outro lado, também, é verdade que qualquer povo que tenha um mínimo de autoestima e orgulho nacional não seja simplesmente consumidor passivo dessas tecnologias e de todo o aparato cultural que as envolva. Há que se nacionalizar, sem xenofobia, o que pode ser nacionalizado.

Todos sabemos que o brasileiro sempre esteve submetido a influências culturais de alguns povos, com seus idiomas nacionais. Somos um povo extremamente receptivo aos estrangeiros e seus modos e costumes. Mas temos de ter um limite para essa submissão, a fim de que isso não se torne subserviência.

Vejam só. Os termos que envolvem a informática são utilizados aqui com as mesmas palavras de língua inglesa, em que essa tecnologia foi desenvolvida. Chegamos ao cúmulo de substituir palavras portuguesas tradicionais por modismos ingleses falsamente adaptados ao português. Ouvimos quase todos falarem deletar uma mensagem, estartar um procedimento. Tenho a mais profunda antipatia por esse tipo de subserviência cultural. Antes de ser sofisticado, quem assim fala demonstra falta de pudor cultural, se é que se pode assim dizer.

Não se justifica nem mesmo o uso de palavras como mouse para identificar o aparelho periférico do computador. Na França ele é souris, na Espanha é ratón, assim como em Portugal ele é rato, que é a tradução literal da palavra inglesa. Essa palavra existe em português brasileiro. Só se deve adaptar palavra não existente, portadora de um conceito novo, como se fez, por exemplo, com futebol (do inglês football), modalidade de esporte inexistente à época.

Até o início da década de 70, os discos de artistas estrangeiros aqui editados vinham com os títulos das canções traduzidos e o original entre parênteses. A partir de então não se fez mais assim. Em 75, em passeio pelo Cone Sul, pude ver numa loja de La Paz o elepê do Pink Floyd das vacas holandesas, também recém-lançado no mercado brasileiro, com o título em espanhol estampado na capa: La madre del corazón atómico, para o original Atom heart mother, que vinha entre parênteses com caracteres menores.

Vejam outro exemplo. Importamos, nos anos setenta, a expressão mass media – “meios de massa”, da língua inglesa. Posteriormente adaptamos a grafia da forma media para mídia, para ficar mais próximo à pronúncia do inglês. Atentem: a palavra é latina; é o plural da palavra medium do gênero neutro, cuja flexão é em –a, logo: media (sentido: “meios”). O inglês foi ao latim e pegou o termo emprestado. Ora bolas, o português é que é língua latina e não tem nada que adaptar a forma oral que os ingleses dão à palavra!

Muitos dos meus alunos, quando indagados, respondiam que júnior era uma palavra inglesa. Como diriam os antigos: ledo engano. Também é de origem latina e significa “o mais jovem”, assim como sênior veio do latim senior, cujo sentido é “o mais velho”.

Na década de 60, também inventaram a palavra estória, que se prestaria para “narrativas ficcionais”, em contraposição a história no sentido de “narração metódica dos fatos notáveis ocorridos na vida dos povos”, como está no Aurélio. Na época, justificou-se a inclusão do termo no português brasileiro, para se fazer a dicotomia que há em língua inglesa: story/history. Nem mesmo sei se em inglês essa dicotomia é clara e precisa. Pelo menos é o que se pode constatar na consulta ao dicionário eletrônico Merriam-Webster (merriam-webster.com/dictionary/).

Outra distinção que se pretende é entre câmara e câmera. Simplesmente não se justifica o uso da segunda forma. Para todos os empregos, deve-se utilizar câmara, que é a forma vernácula por excelência. Assim: Câmara dos Deputados, câmara mortuária, câmara ardente, câmara fotográfica, câmara digital, câmara cinematográfica e aí por diante.

Não sejam essas minhas ponderações lançadas à conta de xenofobia – coisa que não sou – ou de purismo gramatical. Quero tão somente que tenhamos um pouquinho de vergonha na cara e compostura cultural, para não sermos tão subservientes. Ou podemos cair como uma luva no que diz aquele ditado popular: Quem muito se abaixa mostra o rabo.

5 comentários sobre “ESSA NOSSA RICA LÍNGUA (IV) – LÍNGUA E DEPENDÊNCIA CULTURAL

  1. Zatonio

    Mestre, texto irretocável, brlhante, genial ! Vou ver se consigo aprender a copiar para colocar lá no blog. Mestre quantos aos ratos, já são quase sinônimos de políticos, talvez seja por isso que não o usamos para outras coisas.

  2. Paulo

    Professor, não se espante com o meu comentário, mas considero salutar esta plasticidade da nossa língua. Os nossos estrangeirismos, penso, só enriquecem o nosso patrimônio cultural. Estamos caminhando, como nação, para sermos o mais global dos povos. Ademais, não somos ainda um povo inventor de tecnologias. Contudo, mesmo assim temos encontrado palavras adequadas em português para expressar artefatos ou atitudes técnicas. Veja o caso de internet… aplicamos muito bem a palavra rede. No caso de mouse… poderiamos aplicar apontador mas aí confundiria-se com outro artefato. Falamos cursor, falamos teclado, falamos programa (ao invés de software)… porém, receptivos como somos, e levando em conta a lei do menor esforço, nos baseamos muito pela sonoridade da palavra, pela musicalidade que ela nos transmite. E-mail, por exemplo, é tão simples… poderia dizer bilhete eletrônico, pombo eletrônico… mas estas não possuem a sonoridade da primeira. Concluo dizendo que a língua brasileira ainda não se posicionou autônoma, somos ainda uma língua em formação, talvez uma língua que, no futuro, possa ser falada e entendida por qualquer cidadão do mundo, visto que nasceu multifacetada.

  3. Saint-Clair

    Paulo, diremos que você tem um pouco de razão a respeito da questão do enriquecimento cultural. Mas acho que isso vem como acréscimo e não como substituição. A verdade, no entanto, é que somos muito permeáveis quanto a essas influências, o que me causa certa apreensão. Tive muitos alunos que me diziam que não liam literatura nacional, assim como não viam filmes brasileiros, como se essas manifestações fossem de baixa qualidade. Eram consumidores de best-sellers e produções hollywoodianas. Fiz todos os esforços possíveis para reverter esse quadro.

  4. Paulo

    Pois é… a meninada costuma ir por aí… mas, garanto que são nacionalistas quando se trata das "popuzudas", das mulheres "melancias", "samambaias"… encontrar o lugar neste caldeirão cultural que é o mundo de hoje demanda esforço. Esforço de todos. Quando tive oportunidade de lidar com adolescentes, também batia na tecla de que nossa literatura é riquissima, não por ser brasileira, mas por ser também universal. Não devemos nos preocupar tanto com esta tal "identidade brasileira", devemos sim, buscar em nós aquilo que é humano, verdadeiramente humano. O resto é pirotecnia.

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