NÃO SE META COM CAMPISTA

Na venda do Alcides, em Cacimbas, quase tudo acontecia. Nesse dia, Marino e Mariano se engalfinharam por uma ninharia: saber qual dos dois conseguiria, em menor tempo, o amor de Mariana, donzela bonita e prendada, sonhada por todos.

Claro estava que nenhum dos dois conseguiria. Onde já se viu ficar discutindo isso em venda de beira de rua, movidos a doses de genebra e conhaque de alcatrão?

Mas, enfim, estavam os dois ali agora atracados um ao outro, rolando no chão do armazém, com uma chusma de beberrões em volta, atiçando ainda mais a fúria dos desafetos. Se não fosse a disposição do dono do estabelecimento, o campista dobrado de nome Alcides Oliveira, que pulou o balcão com um chicote na mão e entrou de lambadas na cacunda deles, os dois talvez estivessem brigando até hoje.

Nessa época, São Francisco do Itabapoana atendia pelo nome de Cacimbas e tinha duas ruas em forma da letra T: uma chegava e não saía e a outra ia e não voltava. No chão, em lugar de pedra, asfalto ou barro, era areia o que se via, por muito próxima da praia de Guaxindiba.

Vez e outra, Alcides tinha de tomar atitudes para pôr ordem na casa. Morava atrás, com a família numerosa, cheia de meninos e meninas, uns já mais crescidinhos, e não podia tolerar qualquer balbúrdia em seu estabelecimento comercial.

Quando, enfim, conseguiu agarrar Marino e Mariano pelo colarinho, levou-os até a porta, aos safanões, ordenando que só voltassem depois de curada a carraspana. Também não podia ser radical para não perder a rala freguesia de uma vila quase sem ninguém.

Num senão as coisas voltaram aos conformes.

Passou-se uma semana e lá estão os dois de volta, sóbrios, conversando pela rua. Alcides os avista de dentro da venda e se previne: põe o chicote ao alcance da mão.

Os dois entraram com a cara mais deslavada do mundo, cheios de boas-tardes seu Alcides, como tem passado. Para não parecer mais turrão do que de fato era, Alcides respondeu. Mas foi só o primeiro pedir uma dose de genebra, para advertir que não queria confusão, discussão e briga, por causa de mulher. Os dois disseram para não se preocupar, que aquilo tinha sido um destempero que não voltaria a acontecer, as pazes já tinham sido refeitas, eles amigos de infância. Toda essa ponderação liberou Alcides para servir a dose de bebida.

Conversa vai, conversa vem, bebericam daqui, bebericam de lá, comem um naco de salame, uma fatia de charque do Rio Grande, a temperatura começa a esquentar. Agora não mais sobre Mariana, mas sobre Goitacás e Americano. O meu time é melhor, o seu não tem tradição, lembra da goleada de domingo passado, isso foi um acaso. O Alcides só de olho!  Num vintém de tempo, sem que o cuspe chegasse ao chão, a turma presente na venda se dividiu na discussão sobre os dois times, até que o caldo entornou. Saiu sopapo para todos os lados, de ninguém se entender. Todo mundo batia e apanhava, indistintamente.

Alcides, vendo que o chicote era pouco para a gravidade da ocasião, correu lá dentro do quarto, de onde já veio com a garrucha engatilhada. O tiro ribombou por cima do topete dos briguentos, com os chumbos se aninhando no alto do forro da venda, de pé direito avantajado. Foi um deus-nos-acuda! Mais de dez saíram espremidos pelas duas portas da venda, na velocidade do ciscar de uma galinha, como se os corpos todos fossem apenas fantasmas apavorados.

Já do lado de fora, alguns ainda pediram calma seu Alcides, será que a gente não pode nem discutir futebol mais aqui?

Por essas e outras é que Alcides vendeu o estabelecimento, incluída a casa, o quintal cheio de pé de fruta, galinheiro com galinhas, patos e marrecos, chiqueiro com cachaço, porcas e leitões, cacimba cheia, e foi se estabelecer na chegada da vila de Liberdade, na curva dos eucaliptos, em terras de Moacir Monteiro, na estrada que ia e voltava, para todo o sempre.

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Esta entrada foi postada em Conto.

2 comentários em “NÃO SE META COM CAMPISTA

  1. Paulo disse:

    Meu caro Saint-Clair, estou de olho no senhor! Cada crônica, um enlevo! Em tempo: mandei um convite pro compadre fazer uma visitinha no Autores.comO povo de lá também merece conhecer a prosa do amigo.

  2. Saint-Clair disse:

    Obrigado, Paulo Laurindo! Vindo de você, cujo texto é excelente, é um elogio e tanto. Visitarei o Autores.com.

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