MULHERES BRASILEIRAS (II) – LOURAS

Ninguém nasce loura porque quer. É um determinismo astrológico, um carma zodiacal. Mesmo que a mulher não nasça loura, um dia, forçada por alguma conjunção de astros, ela procurará, numa farmácia próxima ou numa loja de cosméticos, a tintura certa, para lhe dar a cor dourada dos cabelos.

Porque loura faz devastação, provoca desmoronamentos por onde passa ou aonde chega. Ela não está na vida a passeio. Veio para desequilibrar o frágil sistema de relações humanas. Já começa que atende por dois nomes: loura e loira.

Conheci há cerca de dois anos uma loura que, com a mera enunciação de um singelo bom dia, prostrou de joelhos dois homens enfatuados, acima de qualquer suspeita, decididos a se transformarem em joguetes em suas mãos. Só se livraram da submissão devastadora, porque a tintura não era das melhores e, ao cabo de dois meses, apareceram alguns insidiosos fios negros no couro cabeludo.

Outro dia, num restaurante, entrou uma loura acompanhada de um senhor de meia idade. Nem sei como consegui perceber a meia idade dele ao lado dela. A loura só não derrubou uns e outros, porque estavam todos sentados. A fenda do vestido jeans da loura, todo abotoado na frente, se insinuava acima da bota, passava pela Úmbria, triscava a Ligúria e sugeria o Vale d’Aosta. Era um desacerto em local de pessoas com fome. Aquilo não se faz, tenha dó!

Tive uma aluna loura e linda, um pouco desprovida de cultura, mas que aparecia mais que todos os outros quase cinquenta alunos da turma de Odontologia, que ia fazer créditos de língua portuguesa no Instituto de Letras. Não havia aula em que ela não perguntasse algo estranho, esquisito. Eu adorava. Era só a loura abrir a boca para espalhar beleza pela sala. Havia alguns alunos politicamente corretos, da classe dos chatos, que sempre tinham um reparo, uma crítica a fazer, nas intervenções que ela apresentava, quase todas insustentáveis. Mas a loura dava sustentação a cada bobagem que dizia. E com que beleza ela falava aquelas bobagens! Jamais vi morenas, negras ou ruivas dizerem besteiras com tanta adequação.

Há louras de todos os tipos e de todas as qualificações intelectuais e profissionais. A cor do cabelo não influencia, em nada, o desempenho que tenham nas mais diversas atividades. Mas que qualquer atividade exercida por uma loura causa impressão muito maior, disso não tenho dúvidas. Imaginem se a primeira dama da França, aquela linda mulher, fosse loura? A terra de Baudelaire voltaria a comandar o mundo num piscar de olhos, ou, como lá dizem, num clin d’oeil. Sendo ela morena, já provoca terremoto; loura fosse, seria um conjunto de cataclismos insuportáveis.

Quero, então, deixar esse manifesto em favor das louras, tão criticadas em piadas politicamente incorretas – olha a lei Caó aí, gente! – e dizer que, sem elas, o mundo seria muito menos interessante.

Um comentário sobre “MULHERES BRASILEIRAS (II) – LOURAS

  1. Paulo

    Já vi que nesta matéria o amigo é catedrático. Portanto, só me resta colocar o queixo no lugar e, data vênia, aguardar os próximos verbetes.

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