PROBLEMAS QUASE INSANÁVEIS

1º.       A mais bonita versão do clássico do Bread, grupo californiano do final dos anos 60, Everything I own, foi gravada por Boy George, que transformou a balada romântica em um reggae de levada suave e bem balançada. Quando o cantor inglês, egresso do Culture Club, lançou a música no álbum Sold, de 1987 (Virgin), imediatamente ela entrou nas rádios e, por conseguinte, nos nossos ouvidos.

Agora, vejam o problema que se pôs à época e nunca solucionado: Como é que um homem de meia idade, chefe de família, razoavelmente hétero, embora sem maiores preconceitos, amante de música, entraria em uma loja de discos e pediria um cd do Boy George, sem se comprometer para  resto dos seus dias?

Minha cabeça ainda não chegou a tanto. Por isso, até hoje, não comprei o cd. Não pegaria bem a um coroa sair de uma loja de discos com um cd do Boy George embaixo do braço.

Muitos hão de me achar preconceituoso e/ou antigo, mas outros estarão comigo. Fico só pensando numa frase cheia de sentidos escondidos que um amigo de trabalho dizia em situações como essa: “Esse aí não se apruma nunca mais!”

Fiquei sem o disco.

 

2º.       De uma feita, estou na sessão de discos das Lojas Americanas do Plaza Shopping em Niterói, num sábado à tardinha, olhando as bancas de promoção, à procura de uma boa pechincha. Ao meu lado, estava um homem dos seus trinta e tantos anos, também garimpando algo. Viro-me para ele e indago: “Será que encontramos alguma coisa interessante?”. Sem perda de tempo, ele me mostra um cd da Gloria Gaynor, estourada com o tema de Priscila, a rainha do deserto, e diz entusiasmado: “Pode levar esse. É maravilhoso! Garanto”. Para não ser indelicado, peguei o cd, sorri amarelo e fiquei ali, como um paspalho, esperando que ele se afastasse, para devolver o cd à estante.

Ou não me aprumaria nunca mais!

 

3º.       O homem é um animal canalha. Não há mais canalha que homem em toda a fauna terrestre, aquática, aérea ou suburbana. Nem o macaco, esse nosso irmão esquisito, age de maneira tão infame. Essa constatação pude ter recentemente, numa tarde, em plena Avenida Amaral Peixoto, com o que ouvi de uma jovem que distribuía panfletos aos passantes. Distante cerca de dez metros de outra colega de profissão, a gordinha alta disse para a baixinha magra: “Veja só: largou a mulher com a geladeira com a porta caindo!” Só ouvi essa frase, mas, por ela e pela gravidade do conteúdo, pude avaliar a canalhice do marido. Onde já se viu abandonar uma mulher que tem a geladeira com a porta despencada?! Conserte a porcaria da porta antes de ir embora, desinfeliz! Isso acaba por denegrir toda a classe. E com isso não posso concordar, em hipótese nenhuma.

 

4º.       Numa viagem que fiz ao sul do Brasil, há alguns anos, com os amigos Rogério Barbosa e Eduardo Campos, a bordo de um fusquinha que atendia pelo nome de Acidentes do parto, em virtude de um abalroamento sofrido à saída da loja onde fora comprado pelo Eduardo, aconteceu um fato fora de propósito. Dormimos na cidade de Registro/SP, já próximo à fronteira com o Paraná. Para tomar o café da manhã, nos dirigimos a uma lanchonete de salão amplo, balcão comprido, que, àquela hora, tinha apenas um atendente japa. Na parede, atrás do balcão, um painel gigante fixava o preço de cada item servido: pão simples, pão com manteiga, misto quente, café, café com leite, dentre outras dezenas. Eduardo resolveu pedir um misto frio, já que não gostava de queijo derretido. O atendente disse que não tinha. Eduardo argumentou, dizendo que, no painel, estava o preço do misto quente. Ao que o japa respondeu:

– Mas não tem misto frio, só misto quente, que custa tanto! – e disse o preço da época, de que não me recordo.

– Tudo bem, cobra o preço do misto quente, mas não esquenta. Deixa frio.

– Não posso. Não está na tabela.

E a discussão continuou por mais um tempo. Eduardo, já irritado, diz para o atendente:

– Cara, você vai ter mais lucro, não vai gastar gás para esquentar o misto.

Ele, com toda a lógica do mundo respondeu:

– Não posso. O patrão vai brigar comigo. Isso não está na tabela. Não posso fazer.

E não fez o maldito misto frio.

Só digo uma coisa para vocês: foi preciso que eu e Rogério tirássemos Eduardo do estabelecimento, antes que ele voasse por cima do balcão para esgoelar o atendente japa.

Saímos dali sem lanche, que só feito num posto mais à frente, na rodovia Régis Bittencourt.

 

5º.       Pão-durismo nunca foi o meu forte, mas já tive alguns vacilos na vida e posso lhes dizer que só me deram problemas.

Certa vez, passando pelo corredor do Shopping Rio Sul, diante da extinta loja Brenno Rossi, ouvi um blues poderoso que saía das caixas de som. Fisgado pela música, entrei e perguntei ao vendedor que som era aquele. Ele pegou o cd que tocava e me mostrou: era um disco do bluseiro americano Magic Slim, de capa com fundo branco e a carona sorridente do músico, que portava uma touca de crochê. Perguntei o preço, mas achei salgado, e fiquei um pouco mais escutando. Pensei lá no fundo do meu vacilante planejamento doméstico: procuro em outra loja, para ver se encontro melhor preço.

Rodei várias lojas de Niterói e do Rio, sem sucesso, até que resolvi voltar à Brenno Rossi. Já não havia mais o cd. Só encontrei informações na excelente loja de Nova Iorque, Colony, em 1995, quando o vendedor, em consulta a um gigantesco catálogo impresso, mostrando-me a foto da capa, informou que o cd estava fora de catálogo. Depois disso, em todas as minhas incursões por outros países, uma das metas é encontrar o dito cd. Nem meu filho Pedro, que estudou nos Estados Unidos por um semestre, conseguiu essa preciosidade.

Então lhes pergunto: pão-durismo leva alguém a algum lugar?

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Um comentário em “PROBLEMAS QUASE INSANÁVEIS

  1. Paulo disse:

    Situações cotidianas repletas de implicações altamente filosóficas.

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