HISTÓRIAS DE CRIANÇAS

1.       Meus sobrinhos Dondinho e Dudu, hoje belos rapazes, certa vez estavam com os pais para o almoço de domingo num restaurante da Praia dos Cavaleiros, em Macaé, onde moram. Enquanto aguardavam o pedido, os dois começaram a brincar e, como é de praxe, a brigar. O pai, para tentar acalmar a dupla, leva-os para fora, num espaço aberto que havia na frente do restaurante. Já lá estava um menino menor, dos seus quatro anos, fortes óculos de grau a denunciar hipermetropia. Dando um pito nos filhos, dirigiu-se ao menino zoclerinho (como dizia minha filha quando pequena, ao ver uma criança de óculos) e falou:

– Veja como é feio dois irmãos brigarem!

Do alto do seu meio metro e de sua larga experiência de vida, o zoclerinho  disse:

– Eu não se meto em briga de irmão dos outros!

 

2.       Dois sobrinhos de minha amiga e madrinha de casamento Marília, de cerca de cinco e três anos, começaram a se estranhar. Empurra um, empurra outro, o mais velho lança ofensa desabonadora ao mais novo:

– Seu bosta!

O mais novo não titubeou e deu o troco, com juros, multa e correção monetária:

– Seu bosta, seu cagosta, seu mijosta!

 

3.       Um primo da mãe de Dondinho e Dudu morre no Rio de Janeiro, vítima de fulminante infarto. Em Macaé, ela recebeu a notícia a tempo de vir com o marido, para o sepultamento do  primo. Antes, no entanto, foi explicar para os filhos o motivo da viagem:

– Estamos indo ao Rio, porque o primo morreu.

– Morreu de quê, mãe? – pergunta Dondinho.

– Do coração.

– Foi tiro, mãe? – ainda Dondinho, querendo entender a causa da morte.

– Não filho, não foi tiro.

– Então foi flechada?

A violência já era muita e na cabeça dele flechas ainda voavam pelo céu do Rio de Janeiro, como nos tempos de Arariboia.

 

4.       Quando minha filha tinha lá seus dois anos, falava pelos cotovelos uma língua portuguesa mal e mal adquirida. Todas as manhãs, ia levá-la à escola, juntamente com o irmão mais velho, e gostávamos de ouvi-la falar um trio de palavras que saíam com o fonema /r/ fora do lugar. Dávamos boas risadas:

– Curlé, murlé, carlô! – dizia ela, eufórica com seu desempenho linguístico.

Quase sempre, quando já estávamos próximos à escola, pedíamos para que ela falasse aquelas três palavrinhas engraçadas. E ela sem vacilar:

– Curlé, murlé, carlô!

Até que um dia, toda orgulhosa, disse:

– Pai, descobri outra palavrinha igual àquelas.

– Qual?

– Curlé, murlé, carlô, dormi!

Aí a risadaria foi geral!

 

5.       Minha netinha Gabriela, hoje com cinco anos, morou em São Paulo de janeiro de 2007 a maio de 2008, portanto entre um e dois anos e poucos meses. Tinha um belo relógio da Barbie, que usava no bracinho pequeno. Acabou esquecendo o relógio em um restaurante de Alphaville, perto de casa. Quando esteve conosco, posteriormente, reclamou a perda do relógio. A vó, então, prometeu-lhe outro igual. Procuramos o relógio em várias lojas de Niterói e do Rio, sem sucesso. O tempo passou-se.

Em  2009, já com quatro anos e de volta ao Rio de Janeiro, ela pede que a vó lhe compre a fantasia de Cinderela. A avó diz que compraria. Ela duvida de que a avó vá cumprir o acordo. Deslembrada do fato, a avó diz:

– E a vó, alguma vez, não cumpriu alguma coisa que prometeu a você?

Ela, com a memória própria das crianças, diz com segurança, dois anos depois:

– E o relógio da Barbie, que você prometeu e não me deu?!

     6.     Minhas sobrinhas Sheila e Shana, na época com cerca doze e nove anos, tinham hábitos e comportamentos bem distintos. Sheila dormia sempre tarde, era mais calada, mais introspectiva, mais estudiosa. Shana, por sua vez, era espevitada, brigona, dormia cedo e não costumava deixar de dar troco em nada. Certo dia, as duas discutiam e Sheila disse para a irmã:

            – Você dorme com as galinhas!

            Shana achou-se profundamente ofendida e respondeu na lata:

            – E você dorme com as piranhas!

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Um comentário em “HISTÓRIAS DE CRIANÇAS

  1. Zatonio disse:

    Mestre, criança é ótimo… mas o poema abaixo é um primor, acho que já é hora de "pensarmos" em um livro…né não? O final é algo fantástico!

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