CANÇÃO DO EX(F)ÍLIO

minha terra não tem palmeiras…

tinha cafezais

hoje tem bois

tinha cana-de-açúcar milho feijão arroz

hoje não tem mais

e se tem não aplaca o apetite dos que plantam

 

minha terra tem sabiá

além de anu caga-sebo rolinha tiziu quero-quero

peixe-frito coleiro bico-de-lacre vira-bosta

suas aves porém não gorjeiam

trinam piam chiam quando muito cantam

são simplórias as aves da minha terra

 

suas matas não têm matas

têm pastos têm capim têm grama

(levaram toda a madeira das matas da minha terra)

 

nosso céu – o céu lá dela

não tem mais estrelas que o céu do rio de janeiro

tem menos poluição

aliás não tem poluição

e muito menos iluminação

a não ser milhares de vagalumes

 

minha terra não tem várzea

tem vargem tem grota tem murundu tem barranco e morro

 

minha terra tem flores algumas poucas

capitão-do-mato girassol rosa lírio e

uma florinha roxa mimosa de quatro pétalas abertas

de nome esquecido e que dá como mato nos canteiros

das casas das pessoas distraídas

 

minha terra não tem bosques

tem capoeira tem macega tem touceira tem mato (ou tinha)

tem – isso sim – alguns quintais hortas e pomares

 

minha terra não tem seio nem ventre

tem peito e barriga como todo ser vivente

que na minha terra ama sofre e vive como toda gente

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Esta entrada foi postada em Poesia.

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