MARIDO SEM SERVENTIA

De serventia mesmo, o marido, só trocar lâmpada, botijão de gás, desentupir pia, levar o cachorro para fazer cocô na rua, carregar bolsas de supermercado, entrar na fila para pagar contas em banco lotado. Na cama, não resolvia há muito. Amor, mercadoria inexistente com um traste desse que fica enchendo a sala com seus jornais jogados pelo chão, as bingas de cigarro abarrotando os cinzeiros, mesmices de aposentado por invalidez permanente. Até vergonha de sair com ele para os lugares públicos, apresentá-lo às pessoas, dizer meu marido. Sem filhos, porque ele estéril, nem para reprodutor serviu. Na repartição, um funcionário sem proeminência, mesmo bajulando diretores. Isso seria a paga por uma ambição desmedida de casamento, impressionada que ficou com o terno bem talhado, as maneiras cavalheirescas dele, quando a atendeu solicitamente para resolver o problema de aposentadoria da mãe? E embarcou nessa canoa furada! Como mulher de respeito e vergonha na cara, nunca se deu a outros, nunca se entregou. Ao contrário, enterrou todos os seus anseios e desejos de mulher sob a montanha da dignidade do nome e de seu respeito pessoal. Mesmo porque nunca sentira prazeres mais gratificantes que o sabor de um pudim de leite, uma sonata de Schubert, os contos de Maupassant. A cama, essa, amiga apenas do corpo cansado dos fins de noite, após o trabalho fatigante da casa. Resignadamente, então, tolerava aquele estorvo de marido, como uma carga que a providência divina tinha-lhe colocado no caminho. No dia em que morresse, iria enterrá-lo sem maiores sofreguidões do que enterraria o cachorro, o sabiá-laranjeira. Aí, talvez, de serventia mesmo, como morto, uma boa pensão, o seguro de vida, que lhe permitiriam desfrutar do conforto que não pudera ter, de passeios e de outros prazeres inocentes.

Sem serventia como era, o marido subsistiu a ela mesma. Ainda teve de enterrá-la com toda pompa e circunstância que o luto requer, senão iriam dizer que era um marido desnaturado.

Imagem em galeriacores.blogspot.com.

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