A ESCOLA COMO MANUTENÇÃO DE CASTAS

Tomei um susto com a notícia da adoção pelo Ministério de Educação e Cultura de livro didático de Língua Portuguesa que consagra como formas aceitáveis, no processo educacional, registros da chamada língua popular, em que não se manifesta o plural com o caráter redundante da forma culta da língua portuguesa.

Devo dizer que não conheço o livro e, por isso, minha opinião se baseia simplesmente nesta amostra do que pode significar todo o seu conteúdo.

Assim seriam consideradas “corretas” formas como “Os livro novo estão nas prateleira”, por exemplo. Isto com o argumento linguístico da relatividade do conceito de erro e acerto em linguagem, aliado à noção de diversidade dos usos linguísticos.

A Escola existe, em princípio e primordialmente, como espaço de promoção sociocultural do aluno. Isto significa dizer que a escola recebe seu “cliente” com a obrigação de, ao fim de determinado período, entregá-lo em estágio mais avançado do ponto de vista de suas habilidades e competências em diversos ramos do saber comum: em línguas (entendimento e expressão de textos), em matemáticas (compreensão de fenômenos ligados às quantidades naturais), em consciência, enfim, como cidadão, através do conhecimento da história e da sociedade em que se insere.

Tomar a criança com seis/sete anos e, ao cabo de um processo educacional, devolvê-lo muito próximo das competências que ele trouxe como bagagem é simplesmente estabelecer um sistema de castas, no qual os provenientes das camadas mais simples da população serão mantidos em tal condição.

Talvez seja este mesmo o objetivo de uma Escola que não tem a perspectiva da Educação como o processo de crescimento e libertação da pessoa humana, mas desgraçadamente com a produção de trabalhadores com níveis de capacidade diferenciada, destinados por ela, escola, para as diversas funções laborais.

Estaremos instituindo, via Educação, o sistema odioso de castas que prevalece, por exemplo, na Índia. E digo aqui odioso sem o mínimo pudor, por entender que o ser humano não pode estar atrelado, de forma definitiva, à sua condição de nascimento. Não nascemos para isto. Cada um de nós pode procurar o melhor caminho a trilhar e não há de ser a origem um limitador disso. E a Escola tem a obrigação de trabalhar em favor do aluno.

Deste modo, vejo na adoção totalmente equivocada de conceitos pedagógicos como este o desejo escondido de que os pobres e os oriundos das camadas culturalmente menos complexas se mantenham no lugar “que lhes é destinado”.

Aprendi, durante o curso de Letras, através da Linguística, que uma língua se manifesta em vários níveis e registros, tanto do ponto de vista social, quanto do regional ou geográfico e mesmo do pessoal. Nenhum deles pode ser tachado de errado, desde que esteja adequado ao momento em que é produzido, ao falante e ao ouvinte, os elementos básicos do processo de comunicação.

Na verdade, considera-se “erro” em língua aquilo que não é adequado a esse tripé. À Escola, no entanto, cabe o papel de habilitar o aluno a galgar a escala da maior eficiência na compreensão e na expressão em língua pátria.

O resto é perfumaria pseudoliberal. Ou será que isto é a política educacional do governo?

A Escola que assim proceder trabalhará pela manutenção do status quo, e os reflexos disto se farão notar em breve.

Imagem em eb1-figueiredo-alva-rcts.pt.

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