ORAÇÃO APOPLÉTICA

Senhor, acordei ainda agora, sob os raios do sol desta manhã outonal, e mal liguei o rádio já comecei a ouvir o tal sertanejo universitário, que muito tem afetado boa parte de nosso povo ordeiro, devoto e trabalhador.

Queria pedir-vos, ó Senhor, que, caso não tenhais, no momento, nenhum trampo mais irado para resolver, tipo conflito judaico-palestino; tornados, terremotos, furacões, ou qualquer outra catástrofe natural descalibrada; ou, ainda, socorro pessoal a potestades caídas em desgraça, cujos nomes aqui não declinarei, nem silvarei, a fim de não prejudicar as investigações, dignai-vos, ó Magnânimo, refrear a proliferação deste tipo de praga musical;* bem como, ó Poderoso, se não for demais, impor o silêncio nas emissões sonoras que invadem o éter e podem atrapalhar o caminho das alminhas mimosas que, pressurosas, demandam o Paraíso.

Aproveito também, ó Sapientíssimo, para implorar-vos humildemente que confundais as línguas, como ocorrido em Babel já lá se vão anos, de todos esses espertalhões que, nas rádios e nas tevês, arrancam dinheiro de gente incauta e de generosa fé, usando desavergonhadamente vosso honrado nome.

E, se não for pedir demais, para uma segunda-feira cheia de compromissos, uma vez que deveis ter descansado no sétimo dia e, com certeza, o serviço acumulou, dai-me a capacidade de ganhar dinheiro do ínclito ministro Palocci, e vos prometo nunca mais perturbar-vos com tais questiúnculas de somenos importância.

Amém!

PS (emenda aditiva à oração apoplética): Protegei nosso meio-ambiente do novo Código Florestal, da sanha de alguns produtores rurais e de outro tanto de mal intencionadas ONGs e pseudodefensores da causa verde.

Amém traveiz!

(*Não sei se repararam, mas o Senhor aprecia muito orações cheias de ponto-e-vírgula e verbos na segunda pessoa do plural.)

Imagem em altairgermano.com.