O SIMPLES ENTENDIMENTO DAS COISAS

G. Braque, O viaduto de Lestaque, séc. XX (em dignow.org).

Lúcia apertou o botão da blusa e saiu. O sapato novo. O batom novo. A saia bem cortada. A blusa elegante.

A porta apenas ficou encostada. Não houve estardalhaço, nem ranger de dentes. O marido entendeu, os filhos entenderam, a empregada entendeu. Só os livros e os discos não entenderam.

Lúcia apertou o botão do elevador e saiu.

O porteiro entendeu. O zelador entendeu. O síndico e o subsíndico entenderam. Só a portaria não entendeu.

Lúcia girou a chave de ignição do carro e partiu.

Na rua todos entenderam: o homem de calção de banho, o guarda de trânsito, a babá displicente empurrando o carrinho do bebê, o próprio bebê. Só o sinal de trânsito não entendeu.

Lúcia girou o tambor do revólver e apertou o gatilho. E definitivamente partiu.

E ninguém mais entendeu porra nenhuma!

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