OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

Com “seus olhos embotados de cimento e lágrima”, como na canção de Chico, Miguel desceu do andaime para atender ao capataz da obra.

– Que se passa contigo, Miguel? Nunca te vi assim. Estou até preocupado com tua segurança. Parece que você está no mundo da lua. Ninguém pode trabalhar desse jeito, é preciso ter um mínimo de atenção, para evitar acidentes. Se você tá com algum problema, pode se abrir comigo, Miguel. Um homem não chora a troco de nada, eu sei bem disso. É alguma coisa em casa? Problemas com a mulher? Com os filhos? Tá faltando alguma coisa em casa? Vocês estão passando necessidade? Tem alguém doente grave? A mulher andou aprontando? Alguma filha desencaminhada? Se abre, homem! Tenho idade para ser seu pai, e minha experiência pode te ajudar. Um homem da tua idade, quando chora, é porque a coisa é muito grave! Não tenha receio, pode se abrir comigo. Posso até te dispensar por hoje, se for o caso, mas tenho que ter um motivo, uma justificativa, senão o engenheiro pega no meu pé. Agora, se não quiser se abrir, também é direito seu. Pode voltar a trabalhar, mas não vai me aprontar acidente, que já estamos há trinta e sete dias sem acidentes. Vê também se não fica aí chorando igual a um bezerro desmamado, que os companheiros reparam. Tá bem! Tá bem! Não quer se abrir, não se abra. Depois não diz que eu não quis ajudar! É cada um que me aparece! Uma hora, um tem dor de barriga; outra hora, um corte no pé ou na mão; mais outra, uma cabeça rachada por tijolo. Esse miserável chora igual a uma criança, na hora do trabalho, todo mundo vendo, eu querendo ajudar e ele não diz nada. Tá bem, Miguel! Fica com a sua choradeira pra lá, mas não vá me assentar os tijolos fora de prumo, sua besta! Deve ter sido corneado, o filho da puta! Que função é essa de capataz! Ter de aguentar uma dessas!

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