VIVER A VIDA ASSIM, ASSIM

Quando feto, ainda no útero da mãe, sofreu problemas de pressão, princípio de eclampse, placenta prévia. Nasceu, por isso, prematuramente. Morou numa incubadora mês e tal, quando foi para casa no peso de uma galinha magra.

Viveu aos trambolhões, acometido de todas as doenças da infância dos países pobres, das famílias pobres. Teve paralisia infantil, que lhe deixou a perna esquerda zambeta, até hoje arrastada feito um traste inútil por onde anda, ou claudica, ou capenga, ou coxeia, ou manqueja, ou manquitola.

Por pobre, sem boa instrução, os piores empregos, os salários mais irrisórios. Assim, uma vida ridícula, mesquinha, sem horizontes.

Mulheres só as da zona, pagas em moeda corrente, que nem cheque seu aceitam. Dizem que seu cheque também capenga até chegar ao banco.

Propriamente não mora, amontoa-se numa vaga de um quarto que se abre para a rua, sobre a calçada, na beira rio. À noite sobra-lhe tempo para o papo, a prosa, umas goladas de calibrina, seu lazer pequeno. Tudo miudinho, pobrezinho, às migalhas.

Costuma ir à missa aos domingos, quando ouve o padre verberando os pecados, os pecadores, os não tementes a Deus. Fogo do inferno para todos! Lá com seus botões, ele ainda pensa durante a pregação ou excomunhão do padre: Depois de tudo que passei, vai ser a maior sacanagem de Deus se eu for para no inferno! E se acalma…

Imagem em filoeduca.blogspot.com.

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