RESTO DE CANÇÃO

Em comum, Miguelzinho e cabo Astolfo tinham somente uma paixão lúbrica pela mulher de Rolando, que, ao contrário do personagem famoso, não era de briga e, muito menos, furioso. Aliás, era até manso demais. Mas isto não vem ao caso agora.

O que interessa, na verdade, é que os dois não se cruzavam, não se entendiam, fora o gosto pela mulher do dono do bar.

Miguelzinho, boêmio inveterado, olhos injetados de conhaque de mel, vivia de violão pelas noites, vagando de janela em janela, cantando amores e dores de cotovelo.

Cabo Astolfo, estranhamente a voz mais fina que já se ouviu num homem, que dirá numa autoridade de farda, chefe do destacamento local, tinha o mau hábito de andar farejando crimes e criminosos numa terra onde, antes de matar uma galinha para o ajantarado de domingo, as pessoas pediam perdão a Deus.

A mulher de Rolando, uma moreninha mestiça, só podia sofrer de furor uterino, vez que deixava derreados, cada um no seu tempo, o marido corno, o boêmio seresteiro e o cabo fala fino. Todos eles muito felizes, muito bem satisfeitos! Dos três, no entanto, apenas o marido não sabia dos outros dois, mas isto também não interessa à história.

Por isso é que Miguelzinho e o cabo Astolfo se olhavam de soslaio, sem nunca se encarar, nem trocar palavra. Mas, frequentemente, estavam no bar, um bebendo conhaque, o outro tomando cafezinho, matando o tempo no pano verde da sinuca, no jogo da vida, ou em conversas fiadas.

Numa noite de chuva, o bar apinhado, Miguelzinho, já com conhaque até a medula dos ossos, afinou a voz e falou, imitando o desafeto:

– Pinto de soldado sobe mesmo ou é apenas soldado?

A resposta veio imediata no estrondo de dois balaços trinta e oito, que arrebentaram a boca do cantor. Os demais fregueses, imobilizados pela cena, não se atreveram a deter o homem da lei, que, absolvido posteriormente, mereceu todas as promoções que um meganha podia ter.

Miguelzinho, no entanto, quando foi socorrido no hospital da sede do município, era apenas um resto de canção, uma página virada do cancioneiro popular brasileiro, mero fragmento de um setenta e oito rotações inaudível.

Geri Garcia, Assassinato em Granada, 1936 (ardotempo.blogs.sapo.pt).

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