SOBRE O CORPO DA MULHER MORTA

Os olhos estão fixos sobre o corpo da mulher morta à beira da estrada, atropelada por um ônibus da linha Rio-São Paulo que, desgovernado, invadiu o acostamento e pegou-a distraída. Ele estava chegando, naquele momento, ao encontro marcado, para irem às compras no supermercado.

Não sentia dor. O corpo, na verdade, estava entorpecido por um sentimento inexplicável de vazio, de solidão das geleiras antárticas, de obscuridade dos espaços etéreos. Não havia lágrima, todo ele uma secura nordestina. Nem choro, a alma já gasta do sofrimento quotidiano. Apenas mais uma tragédia sobre a existência arrastada.

Os olhos não se desatam do cadáver da mulher, quase ela mesma em vida, apenas o rosto contorcido pela dor do impacto.

Os curiosos vão chegando e põem a mão sobre seu ombro, sobre sua cabeça. Seus nervos estão rijos, seus músculos retesados. Mas não há choro. Na confluência das casas zodiacais dos pobres, a fatalidade e o desespero fazem morada. Ele, ela, os demais que ali se encontram para confortá-lo, repartir um pouco a dor, apenas são seus serviçais. Isso, todos sabem!

Ao final de algum tempo, levanta-se lentamente, ergue o braço para o céu, o punho cerrado, as unhas quase entrando na carne, e grita alucinadamente: poooooorra!

Edvard Munch, O grito, 1893, Galeria Nacional de Oslo (imagem em pt.wikipedia.org).

Anúncios
Esta entrada foi postada em Conto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s