ACORREGE A PRENUNÇA, BONNER!

Há algum tempo iniciei campanha quixotesca para tentar fazer com que William Bonner pronuncie certas palavras de acordo com a pessoa que ele é, de onde ele é, com a formação que ele tem, com a classe sociocultural a que pertence, na situação em que fala e, por fim, de acordo com a pronúncia padrão brasileira.

Já enviei mensagens para a Globo, para ele e Evaristo Costa, já publiquei postagem no blog, já enviei mensagem para o sítio eletrônico do Millôr, porém foi tudo em vão, como é de se esperar. Quem há de contestar o poder da Globo, até para falar bobagem ou pronunciar palavras de forma incorreta?

Algumas vezes, eles têm a humildade de usar o recurso da “falha nossa”. No caso, porém, isto nunca aconteceu.

Esta minha peroração voltou à tona porque, anteontem, durante o Jornal Nacional, Bonner se referiu ao estado natal de Fagner, Belchior e Tiririca, chamando-o de /Ciará/.

É bom deixar claro que nossa pronúncia padrão prevê a pronúncia /Ceará/, com /e/ e não com /i/. Quem pronuncia como ele o fez é o pessoal de Recife, que lá diz /Ricifi/ e /Bibiribi/.

A respeito de minha campanha anterior, digo-lhes que meu moinho de vento está na pronúncia que a Globo faz – e  isto contaminou outras emissoras – do nome do estado de Roraima. Sistematicamente dizem /Roráima/, o que na pronúncia padrão brasileira – aquela que deveria estar presente nos meios de comunicação de caráter nacional – se dá com o fechamento do /ai/ que precede a sílaba seguinte, iniciada com a nasal /m/.

Nestas situações, isto é, nestes contextos fonéticos, o brasileiro, diferentemente do lusitano, tende a fechar (ou nasalar) a vogal que precede fonema nasal: /m/, /n/ e /nh/ (grafo assim para facilitar a compreensão). Dizemos, então: /câma/, /câna/ e /arânha/. Deste modo, Roraima deve ser /Rorâima/, como, aliás, fazemos com faina, lenha, fronha. Em Portugal, por exemplo, grafa-se e diz-se António. Aqui, é Antônio, pela mesma razão.

A justificativa que já ouvi é de que, lá em Roraima, os habitantes abrem o ditongo e dizem /Roráima/. Estaríamos, deste modo, apenas pronunciando como eles o fazem. Isto, no entanto, constitui um traço regional da pronúncia, e não a pronúncia padrão. Uma comunidade de falantes não tem nenhum compromisso com a pronúncia alheia. Cada um faz a sua, de modo natural.

Assim, tal argumento não se sustenta do ponto de vista linguístico, já que, na pronúncia padrão brasileira, não dizemos /Ricifi/, /Parri/, /London/ ou /Nuiork/, para os nomes das cidades de Recife, Paris, Londres ou Nova Iorque, que é como, mais ou menos, dizem os habitantes desses lugares.

Outra pronúncia estranha que Bonner realiza é a da palavra sem-terra, composta por justaposição da preposição ao substantivo. Neste caso, a preposição tem a pronúncia de um vocábulo livre, na língua, com a ocorrência de uma semivogal /i/: /seim/. É como fazemos para bem, tem, vem, pronunciadas /beim/, /teim/, /veim/. E não como uma simples sílaba de uma palavra com sentença, onde não ocorre a ditongação da primeira e da segunda sílabas. Não dizemos /seinteinça/, mas sim /sentença/. Bonner diz /senterra/, quando a pronúncia deve ser /seimterra/, porque se trata de uma palavra composta. Pelo menos, é só ele que assim o faz. Nem mesmo sua simpática colega de noticiário e esposa, Fátima Bernardes, diz de tal forma.

A qualquer momento, posso voltar como minha lança, meu cavalo Rocinante e meu amigo Sancho Pança, para combater meus fantasmas. No entanto, como não dão jeito nem na saúde, nem na educação, dificilmente alguém há de pensar em coisas de somenos importância como o Bonner falar assim ou assado. Mas cada mania tem seu próprio doido!

Aguardem-me!

Dom Quixote e Sancho Pança, por Gustave Doré (pt.wikipedia.org).

2 comentários sobre “ACORREGE A PRENUNÇA, BONNER!

  1. Joana

    “Beim” dito (não “bendito”= reza de procissão católica de outros tempos): cada mania tem seu próprio doido! Será o seu caso? Coisa mais sem pé nem cabeça! Não tem mais o que fazer, não? .

    1. Saint-Clair Mello

      Joana, tenha ou não coisa a fazer, acho que você não compreendeu meu comentário. O que é uma lástima para mim.

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