A QUEDA

Viveu durante muitos anos no fausto e no conforto, com iates, champanhe e fondues. Apartamento de frente para o azul do mar e o corpo bronzeado da juventude dourada da zona sul. Perdeu tudo jogando na bolsa, no jóquei, em cassinos em Mônaco, no Paraguai e no interior de Minas Gerais. De seu, hoje tem apenas certa pose que se pode verificar esnobe. Trabalha como perito em câmbio, de dia, e como crupiê, à noite. Sempre mexendo com dinheiros e valores. Sem poder arriscar, não ficará rico. Também não mergulhará de vez na miséria. O jogo, uma compulsão. Concede-se, uma vez por mês, assim que recebe seu salário, uma esticada a um restaurante, a uma boate, a um show. Lê sempre notícias sobre economia, turfe e high society, com uma lágrima furtiva escorrendo-lhe até o lábio. E se deita frequentemente com a certeza de que, no outro dia, todas as vicissitudes estarão ao lado da cama, prontas a saudá-lo, desejando-lhe um dia tolerável, uma comida bem temperada e uma política econômica que não o empurre ainda mais para a classe dos milhares de desgraçados.

Imagem em ofinodabola.net.

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