ESTES NOSSOS TEMPOS

Estes nossos tempos são pródigos em episódios conflitantes, contrastantes.

Vimos, com certo horror, o ex-ditador líbio Muamar Kadafi* sendo arrastado como um porco ensanguentado pelas ruas de sua cidade natal, após ser caçado.

Ainda que tenha sido Kadafi um ditador monstruoso, como são, aliás, todos os ditadores, a cena nos chocou. Afinal era um ser humano – bem que não fizesse jus ao nome –, morto de uma forma desumana, fim que ele próprio construiu ao longo de seu reinado de tirania e corrupção.

Não tenho a mínima pena de como ele morreu. Não sei se, fosse eu um líbio que tivesse sofrido todas as injustiças engendradas durante seu governo, não tivesse o gosto de dar-lhe o tiro de misericórdia. Aqui de minha casa, tranquilamente lendo as notícias, acompanhando os jornais televisivos, posso exercer este meu lado humanitário. Na refrega, é que as pessoas deixam aflorar seu lado mais sombrio e vingativo. E, ainda que não seja odara, penso que não deveríamos ter nossa humanidade levada a esses limites.

De qualquer forma, ele mereceu. Dane-se ele. E que o inferno lhe seja pesado! Ele fez por merecer.

De outro lado, o ETA vai a público anunciar sua desistência à luta armada. Não é a primeira vez que o faz. Não sei se será a última.

Atentado do ETA ao aeroporto de Madri, em 2006, que rompeu cessar-fogo de anos antes (pt.wikipedia.org).

A questão espanhola é complicada. Os bascos, de onde surgiu o ETA, constituem um povo, uma etnia e uma cultura que se repartem entre França e Espanha. Historicamente nunca formaram um país, o que não constitui fator determinante para que não tenham estado próprio. No entanto, os estados nacionais não são necessariamente unitários como o nosso. Muitas vezes, são multiétnicos, multilinguísticos e multiculturais. A Itália, por exemplo, só existe como tal há muito pouco tempo. Antes, havia uma série de cidades-estados que exerciam seu poder em um território bem menor do que o da Bota de hoje. Garibaldi foi quem promoveu a união dos que hoje conhecemos como italianos, sob o governo de Vittorio Emanuele II em 1861. Assim é difícil determinar: fica como está/faz-se mudança radical.

A Escócia é um país de liberdade política limitada, assim como o País de Gales. Fazem parte do Reino Unido e têm como soberana a rainha Elizabeth. E  já ouvi escoceses que se sentem muito bem assim, sem almejar por uma independência total em relação ao governo centralizador de Londres.

Mesmo na Espanha, as diversas comunidades de culturas próprias têm status de autonomia incompreensível para os brasileiros: Galiza, Catalunha e País Basco gozam de liberdades em diversas áreas da administração pública, impensáveis para uma república federativa como é o Brasil.

A antiga Iugoslávia – “terra de todos os eslavos”, sentido do nome do país –, criada após a Segunda Guerra, esfacelou-se, em guerras étnicas violentíssimas e inconcebíveis nos dias de hoje, em vários estados nacionais. Assim como a antiga Tchecoslováquia, que se repartiu pacificamente em República Tcheca e Eslováquia, tão logo o regime comunista entrou em derrocada na ex-União Soviética. A este respeito, inclusive, costumo brincar, dizendo que a República Tcheca é um país sem nome, uma vez que o nome, isto é, o substantivo é república e tcheca é o adjetivo. Assim não há um substantivo, pelo menos nas línguas que conhecemos, para aquele país. República Dominicana, pelo menos, é conhecida como São Domingos.

Voltando ao caso da Espanha e da renúncia à luta armada feita pelo ETA – Euskadi Ta Askatasuna (em basco, Pátria Basca e Liberdade), vale dizer que este grupo radical não tem o apoio da maioria da população basca. Assim, sua luta se valeu, ao longo do tempo, do inconformismo de parcela mínima da população contra uma situação histórica de séculos. Segundo informações, o grupo tem atualmente cerca de cinquenta membros. Aí, vamos combinar, é muito pouco para fazer uma revolução ou exercer um poder.

Então, daqui do meu cantinho razoavelmente protegido de Niterói, vejo com bons olhos os dois episódios: o desaparecimento, mesmo que sob extrema violência, de um ditador violento e a renúncia à violência de um grupo que, durante décadas, matou indistintamente civis e militares em nome de uma ideia.

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*Grafia por minha conta: com os fonemas necessários a que se  entenda o nome. Dobrar letras, colocar h,  etc. não se justificam em língua portuguesa, em casos de transliteração.

2 comentários sobre “ESTES NOSSOS TEMPOS

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