PARA MORRER, BASTA ESTAR VIVO!

Não caísse o menino na besteira de repetir o que acabara de dizer, que carência afetiva de filho seu ele curava na base do cachaço, do pescoção. O menino andava com certas esquisitices, depois que começou a frequentar o curso de artes dramáticas na capital. A mãe o justificava, afirmando ser a tal da carência afetiva, coisa de um tal de Freud.

Volta e meia, ele vinha até a fazenda para rever os velhos e reforçar a mesada, que andava acabando rápido demais ultimamente. Além dessas tais esquisitices, umas ideias atravessadas e uns trejeitos que não estavam agradando, em nada, ao seu velho pai.

Agravava a situação o fato de o pai ter arrotado durante toda a vida que filho seu, nascesse de bunda ou de cabeça, ia ser macho pelo resto dos dias, até que a impotência, essa amaldiçoada, reinasse soberana sobre seus penduricalhos, nos confins da velhice cercada de filhos legítimos e bastardos, tal a qual ele próprio, a imagem do verdadeiro reprodutor.

O menino, na verdade um rapagão bem apessoado até demais, beirando os dezoito anos, simplesmente disse ter a-do-ra-do Abajur lilás, a peça teatral de grande sucesso naquele tempo. Disse-o, porém, com tal melodia na frase e na voz, que o pai a custo se conteve, para não descer o bração pesado na cara do filho.  E retirou-se da mesa, sob todos os opróbrios do mundo. Foi deitar-se e, lá do quarto, ordenou à mulher que lhe preparasse um chá bem forte de folhas de maracujá. Tinha de se acalmar de qualquer jeito, para não aplicar um destampatório geral que reduzisse o filho a merda de gato.

O rapaz, atônito, ficou sem entender. Que estranho estava seu pai, sempre um homem compreensivo, embora firme em suas posições e em seus preconceitos. Ademais, a peça era um primor de texto, divinamente encenada, coisa de louco! Se, só porque disse que gostei da peça, a reação dele foi essa, imagine quando souber que já fiz minha opção preferencial pelos homens? Vai ser um escândalo!

O pai, que ainda não se acomodara na cama, ouviu o resto da frase maldita, e foi necessário que a mãe se interpusesse entre o filho e o cano duplo de uma espingarda quarenta e quatro, com o cão já engatilhado para pipocar no peito dele.

Abrigado em casa de tio, o rapaz, no dia seguinte, foi acordado de manhãzinha com a notícia do passamento do velho, acometido de mal súbito, misto de embolia cerebral, síncope cardíaca, insuficiência respiratória, crise renal aguda e revertério total das funções neurovegetativas conhecidas e desconhecidas.

Imagem em flickriver.com.

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