DR. SÓCRATES, UM SENHOR JOGADOR DE FUTEBOL

Lembro-me da primeira vez que ouvi o nome de Sócrates em um jogo de futebol. Não me lembro propriamente do jogo, dos times, do placar ou da data. Contudo o que me marcou foi o inusitado do nome de um filósofo para um jogador de futebol. E quem se referia a ele era ninguém menos que João Saldanha.

Naquele seu estilo inconfundível, marcado pela contundência de suas opiniões e um certo mau humor gaúcho, não me esqueço do vaticínio de Saldanha, que o tempo se incumbiu de tornar completamente furado, ao ouvir a escalação da equipe a jogar: “Isto não é nome de jogador de futebol!”

Não só o tempo mostrou que o grande comentarista não tinha razão, como a excelência da técnica daquele moço alto, magro, meio desengonçado e de nome estranho ao meio o fez reconhecido internacionalmente.

Mas Sócrates não foi apenas um senhor jogador de futebol, foi também um líder de seus companheiros e um cidadão lúcido, culto e politicamente ativo, num meio que tem como característica – ou como pecha – a alienação dos problemas sociais. Sobretudo num tempo em que isto não era comum, nem era tranquilo.

Por isto Sócrates foi altivo dentro e fora dos campos. Pode-se dizer que, com ele, não havia bola perdida, tanto no sentido real, quanto no metafórico.

Além de tudo isto, ou mesmo a justificar esta sua postura diferenciada entre os seus colegas de esporte, Sócrates estudou, fez curso superior e formou-se em Medicina, como outro grande craque que o antecedeu: Tostão, também um jogador diferenciado em sua época.

Pela admiração que sempre tive por Sócrates, seu futebol e sua postura de cidadão, a partir da primeira vez que o vi jogar, um pouco depois do comentário maledicente de João Saldanha, que também era um dos meus profissionais admirados, é que tive a predisposição de admirar inicialmente seu irmão Raí, para mim também outro craque dentro e fora dos gramados.

Agora Sócrates se vai, diria mesmo, de uma forma melancólica e nada heroica, antes mesmo da expectativa de vida comum a estes tempos, como a mostrar para todos nós que, até mesmo, nossos heróis são vulneráveis como o mais comum dos mortais e suscetíveis de passar pelas mesmas vicissitudes que nos acometem.

No entanto, se não formos este povo acusado de desmemoriado, os grandes lances de Sócrates hão de ficar por muitas gerações.

Sócrates com a camisa da Seleção (em vocedeolhoemtudo.com.br).

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