A NOSSA CARA MAIS DESLAVADA

O brasileiro oscila entre o ufanismo e a vergonha cívica, conforme as situações. E não falo de dois cidadãos diferentes, o que seria perfeitamente previsível. Às vezes, é o mesmo cidadão que, como doente bipolar, ora se orgulhe, ora se envergonhe de nossa situação. Estamos sempre entre esses dois polos irremediavelmente e é possível que assim continuemos por muitos anos ainda, a depender do que vemos a cada dia.

No entanto, no quesito cara deslavada, o político brasileiro, de modo geral, é imbatível. Mesmo aquele de quem se espera uma postura mais séria, mais consciente, mais responsável diante dos problemas a enfrentar e das soluções a buscar para suas comunidades.

Tudo isto serve como introdução para o comentário que quero fazer para meus leitores, acerca da reportagem de ontem com o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, ao visitar a Cidade do Samba.

Todos sabemos que um incêndio de grandes proporções às vésperas do desfile de 2011, além de prejudicar o desempenho de três escolas de samba do grupo especial, também comprometeu seriamente a estrutura de um dos edifícios que compõem aquele espaço.

Não só as obras de reconstrução começaram de imediato, como também acorreram, de todos os lados, a minimizar os problemas das ditas escolas voluntários contritos e chorosos. Um ano depois, isto é, neste momento, parece que as obras de recuperação estão prontas.

Em outra frente, agora na avenida dos desfiles, que conhecemos popularmente como Sambódromo, assim que terminou o préstito de 2011, iniciou-se obra de certo vulto, para a ampliação das acomodações para o público, envolvendo a derrubada da antiga fábrica de cervejas Brahma e o erguimento de novos setores de arquibancada e camarotes, que atenderão a mais 12.500 espectadores. Quase um ano depois, as obras já estão praticamente prontas e, de fato, estarão para o desfile de 2012.

Pois muito bem! Ontem, enquanto o alcaide desta mui leal cidade passava por entre os barracões em faina louca de preparar fantasias, adereços, carros alegóricos para a grande festa, foi ele abordado por uma repórter que indagou sobre matéria veiculada anteriormente, em que se denunciava o longo prazo de dez dias úteis, para que as equipes responsáveis pelo combate à dengue na cidade comparecessem a um endereço apontado como possível criadouro do aedes aegypti.

Sua Excelência, com um sorriso carnavalesco no rosto, disse que tentaria diminuir tal prazo – o qual permite que um mosquito nasça, cresça, constitua família e encha o Rio de Janeiro com seus filhos –, mas que talvez não o conseguisse.

Repito: ele disse diante da câmara da emissora, com microfone aberto e tudo, que talvez não consiga diminuir o prazo de dez dias úteis, para enviar homens responsáveis pelo combate ao mosquito ao endereço indicado.

Gostaria que prestassem atenção: ele, Sr. Eduardo Paes, é o prefeito da cidade. O chefe do poder executivo municipal. E não pode mandar seus homens correrem diante da emergência?

Este mesmo prefeito, há alguns meses, chegou quase a garantir que a cidade terá uma das piores infestações da doença de sua história.

E quais foram as providências concretas, palpáveis e eficazes tomadas para seu enfrentamento? E em que prazo tais providências deveriam ser tomadas, para que o vaticínio tenebroso não se consuma?

Entretanto, caros leitores, dolorosamente, lhes digo: isto não é Carnaval. Isto é apenas, e tão somente, uma questão de saúde pública, que pode levar ao óbito milhares de cariocas! Mas, desgraçadamente, isto não é Carnaval e não merece o tratamento de urgência e solidariedade de nossas autoridades, para com a população, seu eleitor, enfim!

Sinto que é bem melhor para nós que o desfile das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro seja o mais grandioso possível, na passarela mais moderna e bonita que possa existir, a fim de encantar o mundo com nossa alegria, nossas mulheres lindas, nossos sambistas criativos.

A saúde dos moradores da mesmíssima cidade é um problema que não pode atrapalhar a evolução das alas, o enredo das escolas, o conjunto e a alegoria, nem os passes de mestre-sala e porta-bandeira.

Esta é a nossa cara mais deslavada de brasileiro. E é diante dela que a gente se sente envergonhado de ser brasileiro.

 

Imagem em emfocosurf.com.br.

 

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2 comentários em “A NOSSA CARA MAIS DESLAVADA

  1. Sem falar nas enchentes na Serra, que o Cabral disse…bem…as canalhices de sempre.

  2. Saint-Clair Mello disse:

    É, mais ou menos, o que está na postagem abaixo desta.

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