EU E O CARNAVAL

As cuícas já estão roncando à minha porta para mais uma fuzarca momesca.

Devo confessar que nunca, jamais, em toda a minha vida e na história deste país, como dizia Lula, gostei de carnaval. E isto desde que eu era criança pequena lá em Carabuçu.

Lembro-me de que eu, muito pequeno, fui levado por meu pai com meu irmão, dois anos mais novo, portanto ainda menorzinho, a um baile de carnaval. Minha mãe nos fez uma bonita fantasia de palhaço: calça folgada amarelo-ovo, com suspensório, camisa branca, chapeuzinho, tudo de cetim. Talvez tenha sido uma das poucas vezes na vida em que me senti realmente bonito.

Chegamos ao salão, onde a folia já roncava firme, e ficamos agarrados à mão de papai. Passado algum tempo, sem que nos dispuséssemos a cair na folia, voltamos para casa e,  minha memória guarda, ainda que não tenha confirmado isso posteriormente,  o que meu pai disse para mamãe:

– Zezé, besteira levar os dois para o carnaval. Eles não gostam.

Já rapaz, até andei indo a um e outro baile, porém no intuito maior de arranjar uma gata que pudesse chamar de minha, nem que fosse por uns momentos.

Depois me casei. E não é que minha mulher é apaixonada por carnaval! Sempre foi! Dessas que gostam de fazer agenda do tríduo, para não perder as principais atrações.  Assim, por conta desse casamento com comunhão de carnavais, vou atrás de blocos, vou a bailes, já fui a alguns desfiles de escola de samba. Tudo sem a menor vontade, mas com a cumplicidade que, às vezes, penso ser importante para que a relação não azede. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, não é mesmo?

Felizmente, depois de todos esses anos fazendo o sacrifício que, em havendo outra vida, espero que seus guardiões estejam anotando tudo no meu crédito, minha mulher anda um tanto decepcionada.

Após sair atrás do Cordão da Bola Preta durante alguns anos, no meio de uma multidão infernal, sob um sol escaldante – ela se acabando de cantar e pular e eu atrás igual a um dois de paus –, acho que ficou muito chateada com a situação em que transcorrem os desfiles atuais.

No último a que fomos, dividimos a sofreguidão do embalo com uma cidade suja, abandonada, ruas que eram poças de urina, uma fedentina de quinto mundo. À época, disseram que o Prefeito Maluquinho tinha ido passar os três dias em Paris e largou mão da confusão daqui. Aquele dantesco espetáculo periférico foi demais para nossa terceira idade.

No entanto, até o ano passado, ainda fui arrastado por ela para alguns eventos, como o bloco Cordão do Boitatá, que se concentra no domingo pela manhã na Praça Quinze, no Centro do Rio de Janeiro. Talvez este seja um carnaval menos traumático, porque não há cortejo – não temos de sair como malucos atrás de um carro de som alucinado –; também normalmente corre um vento fresco da baía e há a possibilidade de se ficar sob a sombra da Avenida Perimetral. Urinar em local apropriado, no entanto, é quase uma odisseia, sobretudo para as mulheres.

Contudo ela não se contenta em ficar à margem da multidão: gosta é de se meter pelo meio de gente, carrinho de cerveja, vendedor de churrasquinho – um verdadeiro pandemônio. Por que carnavalesco é assim meio insano? Não basta ficar sob a sombra, tomando a cerveja gelada, cantando, pulando? Não! É preciso enfiar-se na confusão, acotovelar-se, pisar no pé alheio, ter o seu pisado, para que se sinta em plena folia. É, mais ou menos, como ir a Roma para ver o Papa. Move-se até a terra, para conseguir o intento!

Definitivamente, estou fora! Todavia estou sempre lá. Isto é apenas uma atitude mental. Só estou lá de corpo presente. Meu espírito – que nem sei se existe realmente – vagueia por outros paramos.

E quando tenho de acompanhar blocos que desfilam, por exemplo, pela orla de Ipanema, durante cinco horas, cantando o mesmo samba enredo, que me parece igual a todos os demais sambas enredo de ontem, de hoje e de sempre, no furdunço atrás do caminhão de som, sendo atropelado por um sem número de vendedores e seus bares ambulantes sobre rodas de rolimã? É a antessala do inferno!

Há outro caso: o Bloco da Segunda, que parte da COBAL do Humaitá. A concentração é no pátio de estacionamento, acimentado, com um calor insuportável subindo pelas pernas acima. Não há cerveja, água, suco gelado que minimize o vapor ascendente. A temperatura é tão grande, que sempre está lá um carro do Corpo de Bombeiros jogando água na multidão, para que ninguém – homem, mulher, criança, enrustido ou bicha – entre em colapso e tenha um piripaque. Nessa hora, cabe bem aquela música que diz “me segura, que eu vou dar um troço”!

E o mais engraçado de tudo isso é que, a cada carnaval, a moça da padaria perto de casa vem brincar comigo, dizendo que nos aguarda, a mim e à minha mulher, bem cedinho, para tomarmos o café da manhã, tresnoitados, com cara de Quarta-feira de Cinzas, após uma noite esfalfante na Marquês de Sapucaí.

Eu não mereço esta fama!

Cordão do Boitatá. Veja se você consegue me ver lá no meio. (imagem em extra.globo.com).

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