COISAS INSUPORTÁVEIS

(A postagem de hoje é dedicada a meu filho Pedro.)

Quando chegamos a certa idade (forma eufemística de dizer que estamos mais pra lá do que pra cá), damo-nos o direito de achar certas coisas insuportáveis. Se somos jovens, isto é apenas frescura. Assim que nem eu, já passa a ser direito inerente, inalienável e irremovível.

Li a matéria de capa do segundo caderno de O Globo de ontem sobre Alceu Valença e as homenagens que lhe serão prestadas durante o carnaval deste ano, por seus quarenta anos de carreira.

Bicho maluco beleza (imagem em alceuvalenca.com.br).

Sou admirador de Alceu, de sua música, de sua arte. Tenho, praticamente, todos os seus discos, desde bolachas de vinil a cds. Vi seu primeiro show no Rio de Janeiro – Vou danado pra Catende – e outros mais. Admiro sua postura como artista engajado e comprometido com a cultura brasileira mais autêntica. E também gosto de sua incontinência verbal, seu humor e sua ironia.

Lá pelas tantas, na matéria do jornal, Alceu soltou sua metralhadora contra o panorama da difusão de música no país: se não é o estilo brega, é, segundo ele, o “americanalhado”, com cantores fingindo uma emissão anasalada em imitação aos norte-americanos.

Aliás, são vários os que fazem isso, sobretudo a teteia Paula Fernandes.

Desde que essa linda menina apareceu na mídia, apesar das louvações a ela, tenho criticado no meu círculo de amigos a falsidade de seu canto nasal, nitidamente forçado, claramente fake. Ela, ao falar, não apresenta qualquer traço de fanhosidade. Por que, então, cantar assim, a não ser por imitação aos ianques?

Por outro lado, ressalte-se a grita de Alceu contra esta ditadura do mau gosto que tomou conta da maioria de nossas emissoras de rádio, principalmente, e de televisão. Parece que a música brasileira se resume a este tipo de subproduto, de baixíssima qualidade harmônica, melódica e poética. Não é que não existam novos valores – se bem que poucos -, mas a mídia está comprometida com a difusão disto. Parece que há uma nítida intenção de se abastardar aquilo que já foi nosso orgulho: a música popular. Com que intenção? A quem interessaria isso?

As nossas emissoras também estão tomadas por uma profusão de seitas e religiões, com seus pregadores oportunistas (a própria cara os denúncia), gritando verdades suspeitas, fazendo campanhas para angariar dízimos, prometendo milagres, enfim, ludibriando a fé pública, com o beneplácito de nossas autoridades do setor, que concedem um serviço de utilidade pública para proselitismo religioso.

Para se constatar isso, basta que passeie pelo dial de seu aparelho de rádio. É difícil encontrar uma emissora com programação de qualidade. São pouquíssimas.

Quando se viaja pelas estradas deste país, fica até mais difícil ouvir as rádios regionais. Praticamente todas estão tomadas por este tipo de programação.

E isto acaba ficando insuportável, quando se chega a certa idade.

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