PEQUENOS GASTOS, GRANDES PRAZERES

Durante anos da minha vida, sobretudo na fase jovem – dos dezesseis aos vinte e um anos –, quando tudo parece conspirar contra, vivia de punir meus prazeres. Todos eles. Do mais cabeludo, ao mais simples. Do prazer que o sexo podia dar, ao simples prazer de degustar um prato saboroso.  É que eu aprendia, com a religião tradicionalista e retrógrada que abraçava à época, que os prazeres levam necessariamente à lassidão moral. E isto era inconcebível.

Por conta disto, até com a combinação esdrúxula de alimentos que julgava não se harmonizarem, procurava mortificar meu paladar, uma grande fonte de meus prazeres.

Lá por volta dos meus vinte e cinco anos, aos poucos, já chutado o pau da barraca, daí a pouco vi-me uma pessoa sem nenhuma ligação com o transcendente, com o divino, e, portanto, liberado das mortificações, das autopunições, das culpas. No entanto, não saí por aí fazendo loucuras, chutando o balde, arrepiando o cabelo. Talvez a prática religiosa daquele tempo tenha deixado em mim a noção da prudência, da temperança, do comedimento, como forma de se levar a vida. Não sei se estou certo, se estou errado. Até hoje, apeado das crenças, continuo mais ou menos assim.

Contudo, hoje, e já há um bom tempo, não me mortifico mais no paladar. Sobretudo porque a natureza me dotou daquilo que chamo de paladar universal: como de tudo, gosto de tudo praticamente. Algumas vezes, consegui fazer com que meu paladar gostasse de certas coisas que, à primeira prova, não se revelavam agradáveis. Por conta disto, costumo dizer que o paladar é como um burro xucro: é só amansá-lo que ele aceita tudo.

Toda esta introdução de caráter pessoal é para indicar-lhes algumas fontes de prazer que, ao longo destes últimos tempos, tenho experimentado.

Mensalmente reúno-me com os amigos de tempos acadêmicos Rogério Andrade Barbosa, já citado por mim aqui, e Eduardo Pacheco de Campos, para um almoço, como forma de preservar uma amizade que dura desde o final da década de 60 do século passado e pela qual tenho o maior cuidado. Além de amigos do peito, eles são até meus padrinhos de casamento.

Com frequência, vamos ao Restaurante Da Silva, no quarto andar do prédio do Clube Ginástico Português, na Av. Graça Aranha, 187. Comida saborosa, sistema buffet – come-se à vontade –, garçons atenciosos, ambiente clean e um preço razoável. A carta de vinhos atende a todos os paladares e bolsos, sem maiores sofisticações, porém com correção.

Outro local agradabilíssimo pela qualidade da comida é o restaurante Alentejano, na Rua São José, 76, instalado num prédio antigo do Centro da cidade. Qualquer prato do dia é saboroso. Portanto, pode-se seguir a indicação. No entanto, quero destacar o bacalhau à lagareira, de ser comido de joelhos. Um prato serve aos três mosqueteiros que lá vão com frequência e, combinado com a entrada de pastéis de camarão e siri, é de se voltar para casa abençoado.  A carta de vinhos segue, mais ou menos, à do Da Silva.

Agora, esqueça o vinho de acompanhamento e pense na cerveja. Atrás do prédio da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, junto à Praça Quinze, fica o Restaurante Al Khayam, na Rua do Ouvidor, 16. Qualquer combinação que se faça nos vários pratos árabes oferecidos não tem erro. Há sugestões de combinação, porém você pode fazer a sua. No final, prepare o paladar para degustar um tradicional café árabe, que vem com o pó no fundo da xícara. Eu, por exemplo, gosto muito.

Bem ali perto, fica outro de nome árabe, mas com alma carioca, o Al Farabi, na Rua do Rosário, 30/32, que também é café e sebo, com variada oferta de livros usados. Ele estende seu atendimento até a rua, onde normalmente fico, quando vou almoçar com meus filhos. A carta de cervejas é boa e variada – desde as importadas, como as brasileiras artesanais –, com oferta para todos os bolsos e paladares, e às quintas-feiras tem um picadinho carioca de se comer sorrindo. Há porção para um e para dois.

Para não me estender – prometo que volto ao assunto em outra oportunidade –, uma dica infalível: o cabrito (ou o javali) com arroz de brócolis do Nova Capela, na Av. Mem de Sá, 96. Se, após comer qualquer dos dois, você não firmar o propósito de voltar em outra data, mudo o meu nome para Zé Dirceu. Du-vi-de-o-do!

Bon appétit!

O dto cujo cabrito com arroz de brócolis do Nova Capela (em guiadasemana.com.br).

——-

PS: Este blog não é patrocinado por nenhum dos restaurantes citados, bem como o blogueiro não recebe qualquer tipo de bolsa do governo federal, para sair por aí se dando ao desfrute. É tudo por sua conta e risco. O que torna, aliás, a coisa mais agradável!

Anúncios

2 comentários em “PEQUENOS GASTOS, GRANDES PRAZERES

  1. Riva Schuab disse:

    Que delícia! Saboreei cada palavra, cada período! Há um certo tempero machadiano que fascina!

  2. Saint-Clair Mello disse:

    Obrigado, Riva!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s