O RECANTO DA GAL

Capa do CD de Gal Costa, Recanto, em foto de Gilda Midani.

No final de 2011, quando Gal Costa lançou seu último trabalho, Recanto, com músicas de Caetano Veloso, procurei pelo CD em uma das lojas de que sou contumaz comprador, localizada no Centro do Rio de Janeiro.

Atendia-me, na oportunidade, um funcionário relativamente novo na casa e de quem já ouvira lamentações de sua vida pessoal, para as quais me solicitou, como velho e conhecido cliente, a paciência de o escutar. Naquela oportunidade, dei-lhe a atenção que me parecia necessária.

Agora, ali, ao perguntar pelo CD, ele, na função de conselheiro musical, me desaconselhou, embora a mercadoria estivesse esgotada na loja:

– É muito estranho. Está muito eletrônico. Só é recomendável para fãs da Gal. O senhor é fã da Gal?

Não quis confessar-lhe que sou fã de Gal Costa, desde que ela apareceu, meio descabelada, toda hippie, a boca carnuda debruada com batom vermelho e umas pernas maravilhosas; com todo aquele jeito estranho de cantar correndo pelo palco, revirando os olhinhos e dizendo que era filha de São Salvador.

Mesmo quando ela tomou certas atitudes inusitadas, pretensamente ousadas, como mostrar o seio – já então meio muxiba – num show, deixei de ser seu admirador.

Contudo não quis demonstrar esta minha quase devoção pela baiana para o vendedor, que, na verdade, não me conhece bem como consumidor de música.

Aliás, na minha vida de comprador de discos, que vem desde o final da década de 60 do século passado, só encontrei três vendedores que conheciam razoavelmente meu gosto: a Maria, da extinta loja Ultralar; a Graça, da também falecida Mesbla, que foi instruída por Maria a me atender, quando a Ultralar deixou de vender elepês; e Roberto, da Tropical Music do Plaza Shopping.

Porém aquela opinião do rapaz sobre o disco me deixou com certa má vontade, até que um dia, no rádio do carro, ouvi uma das músicas que fazem parte desse CD. A música me agradou muito, e quase o xinguei, por ter dado uma opinião bastante particular e discutível.

Anteontem, na Tropical Music, comprei o disco, que ontem ouvi com atenção.

São onze faixas, todas de Caetano Veloso, que divide a direção artística do trabalho com seu filho Moreno, para a Universal Music.

Não há créditos para os arranjos, mas se presume, pela parafernália eletrônica usada – sintetizadores, wurlitzer, bateria eletrônica, melotron e mais programação computadorizada –, que são os que manipulam tais instrumentos os responsáveis pela roupagem que os versos de Caetano assumem ao serem cantados por Gal.

Todas as faixas soam estranhas para a maioria dos nossos ouvidos. Eu, entretanto, como sempre gostei de novidades e estranhamentos, aprendi a aceitar esse tipo de coisa, em princípio, e, posteriormente, a gostar, com raras exceções.

Aprecio, por exemplo, e muito, a música incomum e complexa de Arrigo Barnabé, Tom Zé, Marlos Nobre, Karlheinz Stockhausen, Kraftwerk, King Crimson, Gentle Giant, Amon Duul II, para citar apenas alguns, na variada gama de MPB, Clássica e Rock Progressivo.

Deste modo, ouvi com prazer cada faixa esquisita, pontuada, sobretudo, por sintetizadores e melotrons, com participação mínima de guitarra, piano, bateria e percussão. Em todas as faixas, a voz da Gal, já denotando a idade – o seu recanto talvez esteja aí também -, segura a onda de uma melodia, por vezes, monocórdia, porém agradável, que diz um texto caracteristicamente à Caetano, também cheio de estranhamentos e lembrando, às vezes, sua aproximação com a Poesia Concreta. Todos, no entanto, muito bem construídos e resolvidos poeticamente. Caetano sabe fazer isto muito bem!

Diria mesmo que a participação instrumental é minimalista, quase incidental, porque – a mim pareceu – o que se quer destacar é o texto, a letra, a poesia. Não que, para a beleza do disco, se possa abstrair a participação de Kassin, Moreno e Zeca Veloso, Alberto Continentino, Luiz Felipe de Lima, Donatinho, Pedro Sá, Davi Moraes, a Banda Rabotinik, Bartolo, Léo Monteiro, Jacques Morelenbaum, Daniel Jobim, Gabi Gudes, Iuri Passos, Jaime Nascimento e o próprio Caetano, em uma única faixa. Como se vê, um time da pesada.

Muitos, talvez, não irão gostar; outros, até mesmo detestar.

Eu, que sempre fui chegado a novidades e estranhamentos, gostei muito do CD. E desculpo o vendedor, que não conhece este meu excêntrico gosto e não comunga dele.

————

GAL COSTA, Recanto, Universal Music, 2011. – Faixas: 1: Recanto escuro; 2: Cara do mundo; 3: Autotune autoerótico; 4: Tudo dói; 5: Neguinho; 6: Menino; 7: Madre Deus; 8: Mansidão; 9: Sexo e dinheiro; 10: Miami maculelê; 11: Segunda (Todas as músicas são de Caetano Veloso).

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