SONHAR NÃO CUSTA NADA

Houve um tempo em nossas vidas – para aqueles que têm, por exemplo, a minha idade – em que era quase impossível pensar egoisticamente.

Em minha concepção, não haveria lugar para a felicidade pessoal. Antes, ela deveria passar pela felicidade geral de todos. De todos os que estávamos do lado de cá. Já que os que estavam do lado de lá – a minoria com as armas na mão – ditavam as regras que deveríamos seguir.

Não peguei em armas contra eles. Não cheguei a este extremo, como alguns companheiros de então. Talvez não tivesse este espírito. Esta disposição. Ou esta coragem.

Sempre achei que se pudesse combater com outro tipo de arma, que não fosse mortal ao corpo, mas sim ao pensamento.

No entanto, vivi o mesmo desespero de milhões de brasileiros que se submetiam a um regime injusto. E fiz do meu papel de professor, durante vinte e três anos, não só um mero passador de informações e conhecimentos, mas, principalmente, de um despertador de consciências.

Pessoalmente nunca fui infeliz. Não fui dotado pela natureza de pessimismo. E jamais tive ódios pessoais, bem como inimigos. Minha natureza não foi feita para isto.

Posso ter sido preguiçoso, mas nunca vacilei entre o que me parecia ético e o antiético. E, sobretudo, o respeito pelo outro. Postura que tenho até hoje e passei para meus filhos.

Se, em determinado tempo de minha vida, perdi a fé – esta coisa que nada tem a ver com erudição ou cultura, mas está em outro patamar –, assim mesmo, nunca abdiquei de princípios. O ser humano é a medida de todas as coisas, para mim. Apesar de todas as suas fraquezas e erros. Mas fora do homem não há solução. Nada se salvará.

E, se nós somos os culpados por todas as desgraças, todas as misérias e injustiças que há, sem nós não haverá salvação possível. Embora sejamos os lobos de nós mesmos, teremos de aprender a ser solidários e fraternos, antes que a natureza varra da face da terra a nossa existência.

E, então, a felicidade será uma verdade social e não apenas um valor individual que se possa esfregar na cara de nosso semelhante.

E a miséria, a fome, o desamparo e a injustiça serão alguma coisa vaga na memória dos mais velhos, dos mais antigos. As futuras gerações só saberão disto, ao lerem nos manuais escolares, como coisa do passado.

É com isto que eu sonho!

Valquíria Barros, Trabalhadores do café (em anuncios.adclass.com.br).

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