FALANDO DE MUSICAIS

Ninguém é perfeito. Nem mesmo eu! Embora tenha cá minhas dúvidas. E, além de não ser perfeito – vá lá! –, também tenho minhas manias, minhas antipatias e implicâncias, como qualquer pessoa.

Algumas manias atrapalham outras pessoas; algumas, não. Atrapalham apenas a quem as tem. É possível que você possa minimizá-las ou mesmo fazê-las desaparecer, para que viva mais confortavelmente.

As antipatias são mais difíceis de ser apagadas. Sobretudo as antipatias gratuitas. Você tem uma antipatia gratuita por determinada coisa ou pessoa e é quase como ter um calo ósseo, um esporão no espírito – mesmo quem não tenha espírito, como eu –, de remoção quase impossível.

E tanto as manias, quanto as antipatias e implicâncias, têm por característica a falta de lógica. É mais ou menos como ter fé em algo. Não faz parte do departamento lógico do ser humano.

Por exemplo: tenho uma antipatia solene por musicais – filmes e peças teatrais, embora goste muito de música, de shows. Aqueles filmes em que os atores cantam, em lugar de falar, então, acho um saco. Jamais tive a mínima vontade de ver a maravilhosa Catherine Deneuve em Os guarda-chuvas do amor (1965, no original Les parapluies de Cherbourg), de Jacques Demy. Contudo, minha antipatia solene toma ares majestáticos quando se trata de filmes musicais com dança, com aqueles atores saltitando “na rua, na chuva, na fazenda”¹.

Cheguei mesmo, tempos atrás, a dizer que filmes assim são a manifestação mais bem acabada da decadência da civilização capitalista ocidental. Acho até que, na época da União Soviética, os comunistas tinham a certeza de que venceriam a Guerra Fria, porque o Ocidente era dado a essas frescuras.

Por exemplo, aquela cena do Gene Kelly dançando e cantando na chuva (no original Singin’ in the rain, 1952, de Stanley Donen e Gene Kelly), agarrando-se a postes, de guarda-chuva na mão, e rodopiando “ao longo da sarjeta, na enxurrada”², acho um horror. E é uma cena clássica. E Gene Kelly é um dos melhores no gênero.

Nunca suportei – e eis outro exemplo (Não me crucifiquem, por favor!) – A noviça rebelde (1965, no original The sound of music), de Robert Wise. Jamais vi o filme. Ou antes, jamais consegui passar das primeiras cantorias. Não sei até onde Julie Andrews rodou sua baiana naquela história. Nem quero saber!

Amor, sublime amor (1961, no original West side story), também de Robert Wise, com uma das minhas musas da juventude, Nathalie Wood (1938-1981), suportei, porque era apaixonado por ela. Mas achei um porre aquele troço!

E agora, recentemente, já passadas várias décadas na minha existência, é que fui descobrir a razão desta minha ojeriza a este tipo de arte. Que trauma desencadeou isto!

É que, quando jovem, tive o desprazer de ver Um americano em Paris (1951, no original An american in Paris), de Vincente Minelli, com a linguiça feia e presunçosa de Fred Astaire, já coroa, conquistando a deusa Leslie Caron (*1931), na flor de sua idade – e de seus lábios carnudos e de seus seios empinados e de seus tornozelos roliços e de sua beleza estonteante –, numa trama ridícula, sem a mínima verossimilhança, que é a base de qualquer obra de ficção. Sem a tal verossimilhança, não se constrói um discurso ficcional plausível.

Veja como era Leslie Caron, à época (cinemaemcena.tumbir.com).

Pois muito bem! Lá na história do filme, aquele americano bobo, feio, magro como um esqueleto e velho, conquista o amor da maravilhosa Leslie Caron, só porque sabia fazer aquele sapateado ridículo e desconchavado. Não vi o resto do filme. Saí indignado da sala, com aquela baboseira hollywoodiana, a exaltar o pretenso encanto que o american way of life despertava numa Europa recém-destroçada pela guerra.

Veja agora Frede Astaire, também à época (cemiteriosfamosos.blogspot.com).

Aquilo foi demais para mim.

A partir de então tenho a maior rejeição a musicais.

E, aproveitando minha bílis ativa, quero dizer também que acho um desfavor à cultura brasileira essa enxurrada de musicais estrangeiros que para cá trazem Cláudio Botelho e Charles Moeller (não vou usar o trema no nome dele, pois sou proibido de usá-lo em linguiça).

Se gostam tanto assim de musicais, que incentivem nossos autores a fazerem musicais. Talvez até passe a gostar deles.

Aliás, obrigado por minha mulher a ir ver Emilinha & Marlene, no Teatro Maison de France, embora não fosse admirador de nenhuma das duas, devo dar o braço a torcer: este musical é muito interessante.

Vejam como implicância é uma coisa sem a mínima lógica!

———-

¹ Direitos autorais intelectuais depositados em favor de Hyldon.
² Do soneto Barcos de papel, de Guilherme de Almeida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s