A FIFA NÃO É ESSA MULHER VOLUNTARIOSA QUE PENSAMOS

Joseph Blatter veio bater à nossa porta, e nos escancaramos todos com uma sem-cerimônia constrangedora, comportando-nos como a mocinha ofendida pelo noivo por quem é apaixonada e doida para voltar às boas, tão logo o traste volte com um buquê de flores.

A imagem de um Blatter atrapalhado tentando cortar uma lasca de picanha parecia à do noivo que vem com a cara deslavada, após aprontar poucas e boas.

Somos um país desavergonhado.

Falamos o diabo do Jérôme Valcke, o francês boquirroto, e agora estamos nos querendo, doidos para soltar a periquita para a FIFA.

A FIFA não é essa mulher voluntariosa que pensamos. É um rufião dos piores, que tira tudo que pode de suas quengas, impõe regras e condições e, no fim do serviço, ainda leva o lucro para casa, na Suíça.

E o presidente da Câmara dos Deputados disse que temos de honrar nossos compromissos desonrados com a entidade, tais como abrir mão de posturas legais, em favor dos interesses econômicos da entidade.

Ouvi há pouco o jornalista Ricardo Boechat fazendo críticas à proibição da venda de bebidas alcoólicas em estádios de futebol, com argumentos fortes e lógicos contra a dispensável tutela do Estado sobre o cidadão maior de idade e responsável por seus atos.

Ele tem sua razão. Contudo, fica estranho que o país tenha de abrir mão de uma regra legal, ainda que erroneamente adotada, apenas para favorecer o interesse comercial da FIFA, durante a realização da Copa do Mundo.

Você, leitor, acha que a FIFA conseguiria isto em um país islâmico, em que consumir álcool é proibido como regra geral?

No entanto o benefício da meia-entrada – que também pode ser equivocada, mas existe – não é aceito pela Dama Voraz.

Por isso é que me parece que a FIFA está mais para rufião, cujo objetivo é arrancar a grana de sua pupila que faz programas condenáveis, a essa mulher voluntáriosa que quer fazer prevalecer seus desejos.

Imagem em gatomorto.tumbir.com.

2 comentários sobre “A FIFA NÃO É ESSA MULHER VOLUNTARIOSA QUE PENSAMOS

  1. Eduardo P. de Campos

    Alô, Saint Clair, boa esta crônica sobre a FIFA, mas gostaria de pôr um pouco de lenha nesta fogueira… primeiramente, algo sem maior importância, é que o tal do boquirroto Valcke não é francês, mas belga, e como tal fala fluentemente o francês, além do flamengo (neerlandês) e o inglês e sei lá eu quais outros idiomas; e segundo, que a expressão francesa “se donner un coup de pied aux fesses” não quer dizer aquilo que a tradução, mal feita, reza. Pelo que pude depreender a expressão quer dizer “dar-se um chute no próprio traseiro” no sentido de “acelerar o ritmo, chutando-se a si próprio”, assim como talvez – mal comparando – faça um cavaleiro ao esporar um cavalo para que este ande mais rápido, sendo que neste caso cavaleiro e cavalo são a mesma pessoa. Esse pronome reflexivo “se” aí atenua, e muito, aquilo que o/a mau/má tradutor(a) jura ser uma ofensa cabeluda (é a velha máxima italiana “traduttore traditore”). Essa história de bebida em estádio de futebol é outra coisa que não entendo. Lembro-me que num jogo pela Libertadores no Maracanã (2008) entre Flu e Boca Jrs (brilhantemente vencido pelo meu tricolor) tomei tranquilamente cerveja dentro do estádio em copo plástico… Fora isso, o governo brasileiro assinou um acordo comercial com a FIFA – nos termos da FIFA – e agora não dá pra voltar a trás. Se ajoelhou, tem de rezar… e o famoso legado que a Copa traria não passa de um puxadinho muito do mal feito: não temos aeroportos, estradas, hoteis, portos, trens, segurança, e nem sequer teremos bons estádios, e a maioria tem destino certo, o de elefante branco.
    Um abraço do Duda.

    1. Saint-Clair Mello

      Amigo Duda, quanto ao francês, me fiei na Wikipedia, pois também achava que ele fosse belga (está lá: “french manager”). De qualquer forma, a palavra “fesses” é aquilo que se considera grosseira, popularesca, e que não estaria adequada à fala de uma autoridade como ele (o tal princípio da adequação da linguagem). E a proibição de venda de bebida alcoólica é relativamente nova, produto da pressão da bancada evangélica no Congresso. Também já bebi cerveja nos estádios e não acho nada anormal.
      O que, no entanto, se estranha é ter de alterar disposições legais – ainda que novas, ou injustificadas -, para atender a interesses dela.
      Obrigado pelo comentário e pela leitura.
      Abraços.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s