MINHA MÃE NA INTERNET

Minha irmã mais nova, Verônica, feicebuqueira de primeira hora, mexedora de computador, quis que nossa mãe, do alto de seus oitenta e cinco anos, começasse nas lides internéticas e que tais.

Ela não quis. Opôs uma resistência ferrenha, tipo zagueiro botineiro.

Achei minha mãe razoável. Não que eu seja contra qualquer pessoa, com qualquer idade, meter-se neste mundo virtual, que, se bem manipulado, não traz perigo de vida. Pode, no máximo produzir alguma LER, problemas na coluna, por exemplo. Mas tenho a impressão de que este não seria o caso, se minha mãe resolvesse explorá-lo. Ela tem outras coisas mais a fazer na vida, que ficar tempo precioso diante dessa máquina.

E justifico esta minha opinião, em favor da recusa de minha mãe.

Em primeiro lugar, é bom que se esclareça, ela não é uma mulher antiga, no sentido de que esteja arraigada ao passado. Não o recusa, mas não está atrelada a ele. Acho até que, para a pouca oportunidade que teve em estudar, ela é uma mulher bastante atualizada. Muito interessada no mundo em que vive. Sempre gostou de ler, tem um livro de poemas publicados e está antenada com o mundo de hoje.

No entanto, ainda alguma coisa persiste em marcar, nela, o tempo de vida que tem. O que, aliás, não é nenhum demérito. Pelo contrário. Todos devemos ter as marcas do tempo em nosso caráter, em nossa consciência, para que não fiquemos como um barco a esmo num mar cheio de marolas.

Uma das coisas, por exemplo, que penso não se coadunar com o avanço tecnológico representado pelo computador é o fato de, até hoje, ela chamar banheiro de quartinho, como até lá pela década de 50 do findo século era comum no nosso interiorzão.  Outra coisa: enxugador, por toalha de banho. É óbvio que enxugador é uma palavra muito mais enxuta que a expressão toalha de banho, que parece ter sido criada por quem não sabia da existência do primeiro termo. E ferro elétrico, para ela, até hoje, é engomador, termo bem mais econômico, vamos combinar.

E, depois, ela jamais teve contato com máquina de escrever (coisa do meu tempo) e com teclado de computador (coisa do meu tempo também, porque ainda não fechei a conta, não viajei antes do combinado). E tenho a impressão de que isto lhe seria muito inconveniente. Todos os seus poemas – que se somam às centenas – foram escritos a mão, em cadernos escolares.

Mas haveria de ser interessante ver minha mãe diante do computador, estabelecendo diálogos, trocando mensagens, com amigos reais e virtuais, através das redes sociais.

Contudo, acho que ela não se curvará a isto. Pois ainda reza o antigo terço de contas em seus dedos cansados das lides da casa e dos cuidados do meu pai.

Como sei que minha irmã mostrará esta postagem para ela, vou aproveitar a oportunidade: Bença, mãe!

Minha mãe manipulando o tablet (foto de Verônica).

 

 

2 comentários sobre “MINHA MÃE NA INTERNET

  1. veronica Machado de Mello

    É claro, que eu não deixei de mostrar a mamãe. Ela gostou mto e achou engraçado, mas me perguntou se é nesse pedacinho que escreve, prq ela vai querer deixar um comentário. rsrsrrs

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