FOI-SE O MEU GURU

Em menos de uma semana, três grandes da cultura nacional morreram: Chico Anysio, na sexta-feira (23), Ademilde Fonseca e Millôr Fernandes, ontem (28).

Particularmente, no caso de Millôr Fernandes, a perda é irreparável. Não que Chico seja menor, ou que Ademilde não tenha sua importância. Eles foram grandes em suas atividades! Mas Millôr foi mais completo como intelectual, como artista, como cidadão consciente, que fez do humor sua cara mais visível.

Leio Millôr Fernandes desde que me entendo como leitor. Tomei contato com ele através de O Cruzeiro, a revista brasileira mais importante do século XX (publicada entre 1928 e 1975). Minha mãe era compradora e colecionadora desta revista semanal, que chegava até nossa vila através do seu Osório, uma espécie de mascate de jornais, revistas, aves e ovos.

Por aquela época, ele se assinava Emanuel Vão Gogo – lembro-me disto perfeitamente – e publicava uma página na revista, em que mostrava seus desenhos, suas sátiras, suas tiradas. Só um pouco depois é que ele passou a se assinar Millôr Fernandes, e me recordo dos problemas que causou com a publicação de uma sátira da criação do mundo, sob o título de A verdadeira história do paraíso. Minha mãe, fã do escritor, mas católica fervorosa, ficou uma arara, como milhares de leitores da revista. A publicação deste texto determinou a saída de Millôr de O Cruzeiro, após forte pressão da Igreja Católica.

Aprendi aí, então, a admirar o gênio de Millôr e, em nenhum instante da minha vida, estive afastado do que ele produziu.

Autocaricatura colhida em cariricaturas.blogspot.com.br.

Contudo a projeção moderna mais visível de Millôr foi através do jornal O Pasquim, do qual foi um dos fundadores. Eu comprava religiosamente o jornal semanalmente. E, ainda que não tivesse tempo para o ler integralmente, a página do escritor não passava em branco.

Durante o tempo em que fui professor, um dos livros cuja leitura recomendava a meus alunos dos mais diversos cursos de graduação era o seu fantástico Papáverum Millôr. E fazia questão de cobrar a leitura, de debater os sentidos ocultos-expressos em cada poema, todos tendo como base o humor.

Pelo final dos anos 70, assinava a revista Veja única e exclusivamente pelas duas páginas que ele mantinha nela. E, quando, por necessidade surgida na mudança para nova casa, fui constrangido por minha mulher a me desfazer de um monte de coisas que acumulava – minha filha há pouco descobriu que sou um acumulador –, destaquei cuidadosamente as duas folhas, mandei encaderná-las em um volume grande, que ainda mantenho em minha estante.

Um tempo depois, o salário já miserável de professor, Millôr lança um de seus livros mais bonitos do ponto de vista gráfico: Desenhos, de 1981. Comentei com colegas do outro trabalho que desenvolvia paralelamente ao magistério sobre o lançamento e o desejo de comprá-lo, assim que recebesse o abono de fim de ano, a ocorrer dali a uns três-quatro meses.

Na semana seguinte, recebi de presente das minhas colegas o livro desejado. Não tive como evitar que minasse água dos meus olhos. Todas elas eram trabalhadoras humildes, com baixos salários, mas que se cotizaram para me fazer aquele mimo, aquele afago no meu coração, que jamais esqueceu tal gesto.

Ontem o Millôr nos fez a desfeita de morrer. De deixar mais pobre este país pelo qual ele se bateu, com sua verve, com sua crítica, com sua sátira, com seu trabalho, com sua arte e com sua inteligência privilegiada. Se a nossa vida pública não melhorou, culpa ele não tem. Porém, se em alguma coisa melhorou, certamente sua parcela de contribuição é sensível. No entanto, a arte e a cultura do Brasil foram muito engrandecidas por todas as suas obras.

O meu guru morreu!

Por isto é que quero, para finalizar este texto, transcrever um de seus poemas de Papáverum Millôr (Rio de Janeiro, ed. Nórdica, 1974, p. 170) e outro publicado em sua coluna, no extinto Jornal do Brasil, em 24/5/1988, na página 9 do I Caderno, cujo recorte amarelado guardo dentro de seu livro.

POEMINHA DO INÍCIO DOS TEMPOS

Se você quer saber por que eu sou assim?

Quando Deus perguntou: “Ouvido?” eu entendi olvido e preferi não ter.
E aí começou tudo.
Ele me disse: “Cara?” eu aí ouvi tara e disse: “a mais extravagante”.
Ele me disse: “Vista?” eu entendi crista e pedi vermelha.
Ele me disse: “Testa” eu ouvi fresta e disse: “Bem estreita”.
Dente eu entendi pente e disse “Não preciso”.
Nariz, trocado por raiz, resultou bem comprido.
“Tronco?” eu escutei ronco e exigi bem curto.
Braços eu entendi traços e pedi bem finos.
Confundi cor com flor e pedi amarela.
Cabelo eu entendi camelo e recusei, é claro.
Jeito eu entendi leito e pedi bem mole.
E quando ele me perguntou: “Talento?” eu entendi tá lento, disse que realmente estava achando tudo muito devagar e ele aí me deu esse acabamento, assim às pressas.
Que é pra eu aprender a prestar mais atenção na outra encarnação.

30.8.1972

MILLÔR

Como o país já tem 140 milhões de habitantes e outro tanto de faculdades, universidades, escolinhas, agências de publicidade e múltiplas e variadas empresas de picaretagem cultural pura e simples, aqui vai minha biografia para que não encham mais a paciência de minha secretária eletrônica, coitada, que tem colapso nervoso de quatro em quatro dias.

Millôr Fernandes nasceu. Seu pai e sua mãe. Todo seu aprendizado, desde a mais tenra infância. Aos 13 anos de idade já estava. Mais tarde já homem feito. No jornalismo e nas artes gráficas completou especificamente. Recusou-se sempre a. o que não invalida. No entanto, sua atuação teatral, até onde se sabe. Dos livros publicados, o que mais impressiona, foi constatado sem qualquer dúvida. A verdade é que, já em janeiro de 1964. Quando o conheceu, o ditador Oliveira Salazar, todos sabem. Não significando isso. Terminado o mestrado percebeu logo. Um dia, depois de um longo programa de televisão, foi que amigos e até pessoas interessadas, naturalmente. Onde e como, Millôr porém jamais, no caso. Ao ser agraciado, esteve, e não foi à toa. Entre os tradutores brasileiros. E tanto em 1960 quanto em 1978. Mas nem todo mundo concorda. O resto, diz ele. Ou seja, hoje em dia, como querem outros. Mas talvez.

2 comentários sobre “FOI-SE O MEU GURU

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