QUEM NÃO PODE COM MANDINGA NÃO CARREGA PATUÁ

Já pensei em doar para a ciência, tão logo desapeie deste corpo físico que me pertence, o meu paladar. Ele é digno de estudo.

Costumo dizer que eu sou um, meu paladar é outro. Somos duas pessoas habitando um só corpo: a consciência e o paladar. Este, reconheço, soa às vezes estranho para um bom número de outras pessoas que convivem comigo. Mas me proporciona grande conforto por onde quer que eu vá. Nada há que eu não coma!

Para princípio de conversa, não conheci ainda o que desagradasse meu paladar. Até coisas que, de início, causaram estranheza, com insistência, passaram a fazer parte do rol daquilo que como. Neste ponto, acho que encarnei espírito antigo de chinês: andou, voou, rastejou, nadou ou estacionou em hortas e pomares, eu como.

Mas, sobretudo, tenho umas preferências que, ao juízo alheio, são estranhas. Por exemplo: pimenta malagueta. Mas tem de ser da forte. Molho de pimenta industrializado, só como último e único recurso. Mais um: café forte natural, sem açúcar e sem gotinhas. Laranjas, tenho preferência pelas de paladar doce-amargo, com alguma acidez, tipo baía. E um cheio de controvérsias: jiló. Troco qualquer comida por jiló. Cozido, frito, cru, só ou acompanhado de qualquer coisa.

Anteontem pela manhã, minha mulher chamou por mim, para que visse no programa Mais Você um mineiro apresentar receita de bolinho de jiló.

Postei-me diante da televisão para apreciar, com os olhos, a iguaria do rapaz, dono de um bar em Belo Horizonte. Ana Maria Braga leu a receita, em que o jiló seja talvez a menor parte. Além de todos os outros ingredientes, o cozinheiro destacou que o orégão e o espinafre entravam na composição, com a finalidade de abrandar o paladar do jiló.

Já não gostei! Quem aprecia jiló gosta do gosto amargo, forte (Que, na verdade, nem é tão amargo assim. Chicória é muito mais é não sofre o preconceito do jiló!). Por isso é que não achei a mínima graça em doce de jiló. Parece tudo, menos o fruto do jiloeiro.

Lembro-me de uma senhorinha que estava junto ao balcão de uma padaria de Icaraí, em Niterói, e pediu uma empada de camarão com pimenta. Eu sempre vou a essa padaria, justamente para comer da tal empada. Então, por prudência, avisei a ela que a empada tinha muita pimenta. Ela, da altura de toda a sua idade, me disse:

– Mas é assim mesmo que eu gosto. Pimenta tem de arder, caso contrário não presta.

E lhe dei total apoio. Quem gosta de pimenta tem de segurar o repuxo. Quem gosta de jiló aprecia o paladar. Assim, não me venham com essa falsa boa intenção de abrandar a ardência ou o amargo, de uma e de outro.

Certa vez, resolvi fazer uma feijoada para meus colegas de trabalho. Antes procedi a uma pesquisa entre os convidados, para saber se todos gostavam de feijoada. Uma das colegas me disse que gostava sim, mas só com paio e linguiça. Então lhe disse brincando que ela não gostava de feijoada; mas sim, de feijão com linguiça e paio.

Voltando ao programa da Globo, tão logo a apresentadora, que também dissera não gostar de jiló, provou e aprovou o bolinho, minha mulher ficou toda desejosa de ir a Belo Horizonte só para experimentar a iguaria. Já eu, peguei birra.

Comigo é assim: quem não pode com mandinga não carrega patuá.

(A imagem abaixo foi colhida em pt.wikipedia.com.)

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