BRINCANDO DE DITADO NO PAINT COM GABI

Henriette Browne, Uma menina escrevendo, 1860-1880 (peregrinacultural.wordpress.com).

Brincado de fazer ditados com minha netinha Gabi, de quase longos sete anos – não falta um mês para isto acontecer –, flagrei, durante a correção, um erro engraçado, estampado em Word, calibri, corpo 22 (“Vovô, eu gosto desse tamanho da letra!”): caxasa, para a água que passarinho não bebe.

Ela escolheu o Paint para digitar, como fazem em sua escola (É assim esse pessoalzinho que veio depois de Gates e Jobs!).

Eu ditava palavras facinhas. Comecei por lobo, bolo – que ela descobriu ser espelho um do outro – belo, teto, casa. Logo a avó ditou bicicleta, paralelepípedo, trabalho, reclamando que tudo estava fácil demais.

As mulheres sempre são mais duronas, enquanto os homens têm um incorrigível coração de manteiga. Se procurarem lá nas antigas cavernas, certamente irão encontrar também a explicação para essa diferença de comportamento.

Por isso é que resolvi endurecer o jogo, para não parecer um avô banana. Aliás, este é o clichê dos avós atuais: são todos uns bananas, que deixam seus netos fazerem de si gato e sapato. Gato preguiçoso e sapato velho, que incomodam menos ainda!

Mas não quero passar à posteridade de duas gerações – meus filhos e netos – como alguém sem sentimentos, durão ou carrancudo. Porém devo tomar minhas precauções, para não ficar desmoralizado.

Sou de um tempo em que nossos pais, tios, avós e demais parentes não distribuíam carinho aos pequenos. Criança era apenas um projeto de gente grande com defeito, sempre a merecer reparos, catiripapos, cascudos, quando não uns contravapores mais fortes, ou castigos corporais mais intensos. Chico Anysio, por exemplo, disse em entrevista que, durante anos, chegou a tomar cerca de duzentas coças por exercício fiscal. E não fazia piada, ao dizer isso! Se se fizer o cálculo, vê-se que era mais de uma, dia sim, dia não, como as antigas injeções para gripe, fortes de entortar o braço da gente.

Há um texto interessantíssimo de Mário Quintana – não me lembro do título, nem do livro – em que ele diz que era tanto não em sua infância, que parecia viver numa casa de intolerância.

Minha avó materna, por exemplo, que chegou a conhecer meu filho primogênito, o pai da Gabi, não dava colher de chá para neto nenhum. Mas mesmo assim gostava muito dela. Ia sempre à sua casa conversar com ela, vê-la cozinhando, preparando um porco, que é como dizíamos da lida com o animal já morto, a fim de preparar suas carnes para que durassem. Gostava de vê-la cortando a couve fininha, com um cuidado quase cirúrgico. Ou descascar o figo verde, com os dedos enrolados em panos, de modo a não se ferirem com uma espécie de leite que os frutos liberavam ao descasque. Ou cortar fatias fininhas de jiló, que ela fritava até ficarem crocantes, com as bordazinhas chamuscadas, e que eram uma delícia, salpicadas.

No entanto, ela nunca – que eu me lembre – me fez um carinho, me deu um beijo, ou um abraço, ou me fez um cafuné na cabeça. Não existia isso no meu tempo de menino.

E não havia essa de criança ficar pedindo presentes a adulto. Aliás, naquela altura da vida, na minha vilazinha, presente só pelo Natal. E olhe lá!

Todavia isso não traumatizava ninguém.

Apesar de tudo isso – ou talvez até por tudo isso –, é que, quando resolvi ser pai, também tomei a decisão consciente de não repetir tal comportamento. Seria carinhoso com meus filhos. Seria seu amigo, em primeiro lugar, para depois ser a autoridade que se impunha. E até hoje os beijo, sempre que os encontro, já homem e mulher feitos.

E procuro ser carinhoso, gestualmente carinhoso com meus amigos, sem ser pegajoso. Com alguns, até troco beijos na face ao encontrá-los.

Vejam só como o carinho multiplica. Há vários anos, dei o primeiro beijo no rosto de meu saudoso e querido tio Cate. Tempos depois, sua esposa, Jaira, veio me dizer que o gesto o marcou profundamente. E, como ele me conhecia razoavelmente bem, comentou com ela que só poderia ter partido de mim esse tipo de comportamento.

Contudo com Gabi fui instado a ditar palavras cabeludas, que, de antemão, ela pediu não fossem dadas como erradas, caso lhes faltassem os acentos.

E mandei ver:

 

O jeito de corrigir, passando um pincel de cor cinza no Paint, também foi ela quem determinou. Para quem ainda não tem sete anos, acho que já escreve muito bem. Pelo menos reconhece os valores fonéticos das letrinhas.

Posso até ser um avô sentimental, meloso e coruja. Banana, não, tá legal!

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