PANCADAS EM DOSES CAVALARES

Arlindinho passou pela Praça Astolfo Dutra, cabeça erguida, com uma sem-vergonhice constrangedora até para os mais despossuídos de caráter. E os gatos-pingados que por ali estavam àquela hora da manhã foram os primeiros a testemunhar aquilo.

E desfilou empáfia e bazófia pela Rua Major Bley, até passar pela ponte e atingir o outro lado, outro estado, num cortejo interestadual vergonhoso, de atravessar fronteira.

Era segunda-feira, e Arlindinho tomara uma proverbial coça de sua legítima esposa, Claudirene, mulher de péssimos bofes, havia apenas quarenta e oito horas. Foi coisa de dar polícia, chamada às pressas pelo 190, às oito horas da manhã, logo após o café.

Os vizinhos, já acostumados aos barracos do casal, naquele dia se assustaram com a gritaria e os barulhos produzidos pela briga.

Claudirene adquirira know-how nessas coisas. Tanto que só abastecia sua cozinha de caçarolas e panelas de alumínio reforçado, espessura 2mm no mínimo, e vassouras e rodos de cabos resistentes. Que eram para ser usados no lombo daquele seu marido, mais desqualificado que testemunha falsa em processo de injúria, calúnia e difamação.

Especificamente naquele sábado auspicioso, em que deveria comparecer à festa de noivado de sua irmã caçula, a mulher desceu, com vontade, no lombo do marido, o cabo da vassoura de vasculhar o teto da casa, que era capaz de pegar o vagabundo a uma distância de três metros. Era um recurso inescapável.

Nessas ocasiões, exalava do bafo de Claudirene um cheiro esquisito de enxofre, de lembrar o Demo. Ela ficava possuída.

Quando a patrulhinha chegou, com o estardalhaço da sirene ligada, à porta da casa, Arlindinho não permitiu que os agentes da lei adentrassem o sacrossanto recesso daquele lar onde o pau comia pior que em casa de Noca. Ele era o absoluto senhor dos opróbrios. E disso não abria mão, por nada nessa vida!

Sem poder agir, os policiais deixaram o desavergonhado à própria sorte e voltaram à delegacia. Só retornariam em caso de crime de morte, com derramamento de sangue ou esquartejamento.

À noite, durante a festa de noivado, estava lá o casal, como se nada houvesse acontecido. No final, Arlindinho, já tonto de uma saraivada de chope acolitada por fieiras de samba em Berlim, chorou com os vergões nas costas, produzidos pela destemperada.

Na cidade, pequena, é bom que se diga, quase toda a população sabia dessas tendências de Arlindinho a saco de pancadas da mulher. E o agravante da situação é que ele era filho de um ex-beque de espera do glorioso time local, cuja fama foi aberta a botinadas nas canelas dos atacantes adversários. O que lhe rendeu o apelido desabonador de Gervásio Ignorante. Até quando os jornais locais, A Voz do Povo e O Norte Fluminense, noticiavam, na seção de esportes, os embates da liga de futebol, davam na escalação do auri-rubro: Gato, Cadinho e Gervásio Ignorante; Braz, Temildo e Baiano; Branco, Zé Cabeça, Zé do Olinto, Quintino do Cartório e Jésus.

Como que para pagar todas as tentativas de assassinato que cometera nas quatro linhas, sua maldição foi ser pai de um homem frouxo, apanhador de mulher, na pior acepção da palavra. Até seu neto de doze anos lhe puxara tal desvio de caráter e quebrara a perna de seu melhor amiguinho nas peladas da escola. O filho, não! O filho era como se fosse a prova contra o pai, de que diz Dalton Trevisan em sua obra. Oh, vergonha!

Mas Arlindinho era justamente o contrário disso tudo. E, por isso, é que passava pela pracinha, naquela manhã de segunda, em direção ao Estado do Rio – como se diz ao atravessar a ponte sobre o Rio Itabapoana -, com a cara mais desavergonhada, ostentando no olho esquerdo, tal medalha de mérito militar, uma roxidão catastrófica, realizada a poder de potente frigideira de alumínio batido, 30cm de diâmetro, espessura 2mm, cabo de madeira prensada, resistente a água, marca Tramontina.

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