DESCULPAS ESFARRAPADAS

Milito no time dos incrédulos desde meus vinte e tantos anos. No entanto, desconfio que, já em menino, as sementes da dúvida ou do inconformismo germinavam na terra nova e fértil da minha consciência, ainda que não o percebesse. Por essa época, eu ainda tinha uma alma que estaria salva ou condenada, conforme a minha conduta diante do Criador e dos meus semelhantes (Ainda há pouco, minha querida mãe disse que já está na hora de me converter).

Hoje creio que não tenho nada a salvar ou a perder, a despeito da opinião contrária de mamãe. Talvez apenas a memória que de mim ficar.

A minha progressiva descrença e a consequente perda da fé foram alicerçadas em alguns fatos que nunca me ficaram bem explicados e/ou esclarecidos na cabeça. Vou enumerá-los aqui, para ver se o leitor amigo possa me compreender e, quem sabe, fazer algum pedido por essa oca alma, na ocasião do óbito.

1. Na história da expulsão de Adão e Eva do paraíso (Gênesis), acho que, apesar da contundência e da irreversibilidade da pena, o Criador estava no seu direito. A propriedade era sua e ele podia muito bem dispor dela a seu bel prazer. Inclusive punindo seus locatários inadimplentes, como – parece – foi o caso daqueles dois imprudentes. A serpente foi um álibi que não serviu de prova, e a sentença, feita cumprir por um arcanjo de espada à mão, é a que pagamos até hoje. Tenho a maior nostalgia do Paraíso Perdido. Aliás, eu e Milton.

2. O mesmo, no entanto, não me pareceu com o caso do assassinato de Abel por Caim, filhos de Adão e Eva, por motivo fútil e torpe e sem chance de defesa pela vítima. Que eu saiba, o assassino nunca puxou uma cadeia. Nem mesmo teve de doar cestas básicas para comunidade nenhuma, pois ainda não havia esse tipo de aglomerado humano, nos limites do Éden. E Caim ainda produziu uma descendência de baixa extração, que acabou contaminando todo o gênero humano, com seu sangue ruim. Eu mesmo tenho um vizinho que – Deus me livre! – parece filho do fratricida. Até a marca na testa que Caim ganhou após o crime, ele tem.

3. Uma história que me enchia de pavor era a do sacrifício do menino Isaac, por seu pai Abraão, como prática exigida por Deus (Gênesis, 22), para testar a lealdade deste. Eu, também menino, me via naquela situação. Nunca olhei de lado para meu pai, porque ele não era chegado a religião. Portanto não seria cobrado pelo Criador para esse tipo de devotamento. Mesmo com o desfecho feliz – a substituição de Isaac por um cordeiro enviado dos céus, aos quarenta e cinco do segundo tempo -, sempre me pareceu que o desejo divino estava acima do que pode suportar o humano. Sentia isto como uma brincadeira de péssimo gosto do Criador para com a criatura, a despeito de toda a interpretação positiva que lhe dão os entendidos e religiosos.

Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), Sacrifício de Isaac (em manufatura.blogspot.com).

4. Na história de Esaú e Jacó, filhos do mesmo Isaac acima, se fosse hoje, quem estaria em cana, num país decente, sem dúvida nenhuma, seria Jacó, por falsidade ideológica, perjúrio e formação de quadrilha, com sua mãe, Rebeca. Na Bíblia, ele consegue iludir o irmão, ludibriar o pai, já cego e inválido, e ficar com os direitos exclusivos de herdeiro universal e legal, como era da legislação da época. E tudo pareceu muito a contento do Criador, que não manifestou sua ira contra a falcatrua. Fez a tal vista grossa. Será que é por isso que dizem que Deus é brasileiro?

5. Já a sova de gurumbumba que Jesus deu nos vendilhões do Templo de Jerusalém (Matheus, 21:12-13) e a transformação de água em vinho (João, 2:1-11) me pareciam bem legais. Julgava o máximo o Nazareno tocar aquele bando de espertalhões do lugar sagrado, na base do cacete. Há alguns lugares aqui no Brasil em que tal ação seria muito benéfica. No entanto, o fato de ter chamado sua mãe de mulher, nas bodas de Caná, é que soa em mim como falta de respeito. Fosse eu falar deste jeito com minha mãe! Seria crucificado!

Posso estar completamente enganado, mas fui dotado do tal livre arbítrio e estou apenas fazendo uso deste direito. E, também, se não fosse a presunção inicial de Adão e Eva, que comeram do fruto da árvore da ciência e do conhecimento, eu não estivesse aqui falando tanta bobagem.

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