SAI, BICHO!

Vou repetir aqui para o meu querido leitor uma história antiga da minha cidade natal.

Bom Jesus do Itabapoana localiza-se na margem direita do rio que lhe dá o nome, no norte do Rio de Janeiro. Do outro lado, está Bom Jesus do Norte, que já é Espírito Santo, só que ironicamente está no sul do estado.

Durante muitos anos, o governo capixaba manteve à boca da ponte que liga as cidades irmãs um posto fiscal, com cancela, a fim de que evitasse evasão de divisas, por contrabando.

Assim, caminhão, caminhonete, carroça, bicicleta, carrinho de mão, enfim, tudo que transportasse qualquer tipo de produto, para atravessar o estado, deveria apresentar a devida nota fiscal e um documento a que se dava o nome de manifesto, comprovando o recolhimento do imposto, para ter a passagem liberada.

Sempre havia, contudo, um e outro que tentavam fazer muamba.

Pois muito bem!

Certo dia, lá pelas duas horas da madrugada, confiando no merecido cochilo que o fiscal estaria tirando, seu Quintino, criador de porcos da Beira Linha, enfiou um capado dos seus vinte quilos, num saco de aniagem reforçado, para ser entregue no açougue do Agostinho, do lado fluminense.

Tenho a impressão de que, por essa época, o Espírito Santo andava tão a perigo, que até sobre galinha cobrava imposto.

No exato momento em que seu Quintino contorna a cancela e põe o pé na passagem de pedestre da ponte, o dito filho daquela que ronca e fuça começa a grunhir.

Imagem do suíno em lauravive.blogspot.com.

O fiscal que cochilava, Paulinho, um homem jovem, alto, feio, mal ajambrado e míope, acorda e vê a cena. Ainda ajeitando os óculos fundo de garrafa, interpela o muambeiro:

– Ei, ei! Que é que o senhor está levando aí?

– Nada não!

– Como nada não? E aí nas suas costas?

– Ué, tem nada não!

Então o porco grunhe novamente e se mexe.

– Isso é um porco nas suas costas, seu Quintino! – afirma o fiscal já completamente desperto.

E seu Quintino, tentando fingir que não sabia de nada, pula de lado, soltando a carga:

– Sai, bicho excomungado! Desafasta!

Pois não é que agora vem o porta-voz do governador Agnelo Queiroz, do Distrito Federal, para dizer que seu chefe, de fato, conheceu o contraventor Charlot Waterfall, vulgo Carlinhos Cachoeira, há um par de anos.

Anteontem mesmo o governador fez como seu Quintino, levando o contrabando. Não sabia que carregava um porco nas costas.

O ex-ministro Carlos Lupi também utilizou-se do mesmo expediente, relativamente a um empresário que lhe emprestava um jatinho para suas viagens e com quem, de vez em quando, pegava uma boia.

É… seu Quintino fez escola!

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2 comentários em “SAI, BICHO!

  1. Na verdade, hoje, nós não temos mais boi ladrão, mas somos governados por porcos ladrões! Acho que é a tal modernidade!

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