DEVO TER SIDO INCONFIDENTE

Quando em julho de 1974 conheci Ouro Preto, descobri que minha inexistente alma é mineira e barroca. Talvez inconfidente. Mas com certeza colonial.

Meus amigos Rogério Barbosa e Eduardo Campos e minha então namorada Jane, já conhecedores da cidade, prepararam-me a cena para que eu tivesse o impacto que a cidade merece.

Chegamos ao Camping Club, onde ficaríamos e que se localiza ao lado da estrada antes de se chegar à cidade, no fim da tarde.

Armamos as barracas, tomamos um banho e nos dirigimos no valoroso fusca Acidentes de Parto, do meu amigo Duda, até a praça central. Antes, porém, de começar a parte propriamente colonial da cidade, o combinado era de que eu fechasse os olhos e só os abrisse, quando autorizado.

Não rodamos muito. Devia ser por volta de oito horas da noite, quando paramos. Saímos do carro – eu e Jane íamos no banco traseiro do fusca duas portas. Guiado por ela, fui estacionado sobre a calçada na esquina da Praça Tiradentes com a Rua Cláudio Manoel.

Ouro Preto, Rua Conde de Bobadela (Rua Direita) (foto do autor).

Quando fui autorizado a abrir os olhos, a imagem foi impactante. Já era noite fechada. A praça, iluminada por postes que lembram antigos lampiões, estava com uma neblina um pouco mais alta que as pessoas. E a iluminação se esbatia no nevoeiro, provocando o efeito de uma névoa iluminada, através da qual pude ver os casarões coloniais do local.

Fiquei como que paralisado, boquiaberto. E, jovem que era então, soltei um palavrão, para manifestar o choque encantatório que a cidade me provocou.

Naquela noite – época dos antigos festivais de inverno que ficaram famosos durante o tempo da ditadura militar, como uma espécie de enfrentamento estudantil ao regime –, subimos e descemos ladeiras; entramos e saímos de porões-bares com música ao vivo; bebemos algumas e experimentamos o revigorante bambá de couve; paramos em vários grupos de jovens tocando e cantando pelas ruas; respiramos o ar frio da noite e admiramos o que foi possível da obra humana que ergueu a bela Vila Rica, com destaque para o florão da fachada da Igreja de São Francisco que, sob a iluminação, parecia reproduzir o rosto de Aleijadinho.

Um tempo depois, aconselhado por meu querido amigo André Trouche, prematuramente falecido, fui conhecer Tiradentes. E aproveitei um de seus festivais de gastronomia, em agosto de 2001. E foi outro choque de prazer.

Tiradentes, Rua Jogo de Bola (foto do autor).

A cidade fervilhava de pessoas, de eventos, de atrações. E, cobertos por potentes casacos que não se podem usar em Niterói ou no Rio de Janeiro, eu e Jane percorremos as ruas de pedra pé de moleque, à cata de maravilhas. Havia trios de jazz – piano, baixo e bateria – tocando sobre calçadas de bares minúsculos. A cidade é encantadora! E caminhamos, parando aqui e ali, curtindo o frio e cada passo inseguro sobre aquele tipo de calçamento.

Mais recentemente, há cerca de quatro anos, novamente eu e Jane saímos de Niterói às oito da manhã em direção a Diamantina. Eram sete e meia da noite, quando chegamos à cidade. Mais especificamente, ao hotel projetado por Oscar Niemeyer – o Tijuco – no centro histórico, onde fizéramos reservas.

Nosso objetivo era assistir ao espetáculo Vesperata, que ocorre anualmente. Neste 2012, entre os meses de março e outubro, conforme a programação oficial.

É uma experiência única!

O público se dispõe por mesas e cadeiras no largo da Praça Correia Rabelo. Nas sacadas dos sobrados que contornam o largo, colocam-se os músicos de duas bandas: uma civil, outra militar. E os dois maestros, no centro do largo, se revezam na regência das peças: clássicas e populares; antigas e modernas.

Não há como não se emocionar!

Diamantina, foto de Marcelo Sant’anna/EM/DAPress (em minastrain.blogspot.com.br).

Mas a cidade é um belíssimo espaço urbano.

Por comparação, percebe-se que Diamantina era – das três – a mais rica, por suas construções, seu casario de dois e três andares. Depois vem Ouro Preto, que já foi capital do estado. Por fim, como um presépio colonial, Tiradentes, com raríssimas casas de dois andares.

A Tiradentes, desde então, vamos uma vez por ano. A Ouro Preto, vez ou outra. A Diamantina, só aquela.

Mas como tenho vontade de lá voltar! Não foi possível desfrutar da cidade por completo. Seus encantos não se revelaram inteiramente. Mas o que pudemos experimentar me deu a certeza de que é uma cidade a que não se pode ir uma única vez na vida.

A não ser que você não tenha uma inexistente alma mineira. E barroca. Talvez mesmo, inconfidente.

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