SÓ HÁ ESPERTO, PORQUE HÁ BOBO!

Vendo tantas notícias sobre roubalheiras, falcatruas, desvios de dinheiro, vieram-me à memória algumas coisas interessantes de nosso país.

Entre l964 e1966, tive um professor de Química no antigo Curso Científico, no Colégio Coronel Antônio Honório, em Bom Jesus do Norte-ES, que nos contou certa vez um fato inusitado por que passara.

Na época em que se foi construir o que hoje é a BR-101, no trecho capixaba, o governo do Espírito Santo vendeu cotas ao público. Ele, professor Aderbal, foi um dos que resolvera aplicar parte de suas economias naqueles títulos da estrada, durante muitos anos, por isso, conhecida pelo nome de Coteca.

Algum tempo depois, ao ir tomar posse no cargo de professor estadual, para o qual fora aprovado em concurso, teve de fazer um depósito – um tipo de caução, que eu chamarei maliciosamente aqui de dote, como o dos casamentos –, para que pudesse ter validada a sua nomeação. Tenho a impressão de que aquele estado andava numa pindaíba desgraçada.

Pois vejam qual não foi a surpresa dele, ao ter recusado o depósito de tais cotas como caução. O governo capixaba queria dinheiro vivo e para ele seus próprios papéis nada valiam.

Vejam mais esta.

Lá pela década de 80 do século passado, uma de minhas alunas da faculdade veio propor-me a abertura de uma conta em caderneta de poupança para o banco em que começara a trabalhar, o Bradesco. Era parte de sua tarefa de admissão conseguir determinado número de contas novas. Como meu primeiro filho já tinha sua caderneta aberta pelo avô, pensei em fazer o mesmo para sua irmã, então com cerca de dois/três anos. Não me lembro do valor depositado à época, mas penso que fosse alguma coisa parecida com quinhentos reais de hoje.

Por aquela época os bancos tinham agências próprias de poupança e a dela se localizava no Edifício Avenida Central.

Alguns anos mais tarde, não muitos, resolvi ir até a agência para conferir o que havia rendido o valor lá aplicado, que equivalia a dez vezes o mínimo para abertura da conta, e tive a surpresa de ser informado de que não havia conta nenhuma, pois o dinheiro havia sido engolido pelos mecanismos criados pelo governo em prol dos bancos.

E esta outra.

Lá por 1989, após a rescisão de contrato como professor da antiga ASOEC, hoje UNIVERSO – Universidade Salgado de Oliveira, dirigi-me à Caixa Econômica Federal, para sacar o depósito do FGTS. Na oportunidade em que levantei o saldo, o funcionário da CEF me informou que havia um resíduo do meu antigo emprego na Ótica Avenida, para cujo resgate deveria levar minha antiga carteira de trabalho, onde constasse a opção pelo sistema FGTS (coisa necessária naquela altura). Perguntei-lhe, então, se poderia deixar o valor ali, como uma poupança, rendendo os juros convencionais. Claro, foi o que ele me disse. “O dinheiro é seu e ficará rendendo.”

Dez/doze anos depois, voltei à CEF para sacar a minha grana – que não deveria ser muita –, e qual não foi a minha surpresa ao ser informado de que não havia dinheiro nenhum. O cascalho se diluíra no tempo e dele não sobraram nem anotações, numa alegoria ao título da obra de Marshall Berman, Tudo que é sólido desmancha no ar.

E para encerrar.

Um pouco depois, por volta de 2003, numa das viagens a Miracema, meu sogro sacou de seus guardados um certificado de compra de ações do antigo Banco do Estado do Rio de Janeiro S. A. – BERJ, e me pediu que fosse até à sede da Rua Nilo Peçanha, para saber como resgatar aquele lote, tendo em vista que o banco já tinha sido incorporado pelo antigo Banco do Estado da Guanabara, produzido o novo BANERJ, que foi posteriormente vendido ao Banco Itaú.

Cheguei ao gabinete do executivo com o tal certificado e expliquei-lhe a intenção de meu sogro em resgatar sua aplicação.

Ele pegou o certificado – impresso em bom papel –, olhou de um e outro lado, examinou bem e me disse com palavras que não me saíram dos ouvidos até hoje:

– O valor de face do mercado é nulo!

Eu tomei um susto e pedi que ele repetisse. Repetiu exatamente as mesmas palavras, que eu traduzi:

– Então isto não vale nada?

E ele, com sua gravata soturna, sua camisa social branca e seu olhar de papa-defuntos:

– Exatamente!

– Então meu sogro perdeu seu dinheiro?

– Infelizmente!

Saí com um desconforto danado, imaginando como somos feitos de bobos, de idiotas, de palhaços.

E – não sei se notaram – essas histórias não se deram com estelionatários privados, comuns, gente que pode ser mais esperta que você e lhe aplica golpes. Foram governos e instituições “sérias” do mercado financeiro.

Não se imagina que tratando com entidades que tais isto possa ocorrer. Mas ocorre!

Enquanto isso um bando de gente se organiza em quadrilha para assaltar os cofres públicos, de todas as formas e por todos os meios!

Por que é que o nosso país tem de ser assim?

Irmãos Metralha, criação de Walt Disney (em pavablog.blogspot.com).

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