ROTEIRO ÉTILICO E GASTRONÔMICO DE MIRACEMA (I)

Vista noturna da Igreja Matriz de Miracema (foto do autor).

Vista noturna da Igreja Matriz de Miracema (foto do autor).

Para início de conversa, devo dizer que não sou especialista em Miracema. Mas darei alguns palpites sobre alguns aspectos saborosos da cidade.

Miracema não é minha cidade natal, como alguns já devem saber. Mas a de minha mulher, Jane. Lá ainda moram meus sogros, já avançados na casa dos noventa. Por este motivo, temos compromisso mensal com eles.

A par desse compromisso, quando não há nada mais sério a se resolver, como felizmente é o mais comum, aproveito para andar à solta, aqui e ali, atrás de pequenas coisas que nos podem trazer algum tipo de prazer inocente, abstraídas aqui as taxas de colesterol, triglicérides, ácido úrico e glicose.

Se quiserem mais informações oficiais da cidade e do município, aconselho e pesquisarem na Wikipédia. O que me move aqui é certa integração que pude desenvolver com a cidade, em não sendo filho da terra.

Isto talvez até se constitua em ponto favorável, pois não sou movido por simpatias ou antipatias, tão comuns em lugares pequenos do interior.

Tenho um pequeno e sincero círculos de amigos, todos amigos de minha mulher, através da qual estabeleci esses laços de amizade.

Embora seja uma cidade pequena de interior, Miracema oferece algumas coisas muito interessantes para seus moradores, ou os visitantes contumazes como eu, ou mesmo para os esporádicos, que por lá apareçam vez ou outra. E difere de minha cidade natal, Bom Jesus do Itabapoana, em alguns aspectos, embora seja menor e menos movimentada.

Miracema tem – e eu não conheço em minha terra – dois bons açougues especializados em carne de porco: o do Norton e o do Colombinho. Lá se conseguem comprar todos os cortes do suíno fresco, recém-abatido, e outros já preparados por eles, prontos para assar. Os dois produzem os melhores chouriços que já comi na vida (o sabor do que minha vó fazia já se perdeu nos escaninhos de minha memória gustativa). Fazem linguiças de qualidade, puro porco, frescas, curtidas, defumadas. Produzem uma pele de porco frita, crocante, que é melhor que caviar (já comi os dois e o paladar do caviar não chega perto do da pele). Além disso, o açougue do Colombinho também vende outros tipos de carne: rocambole de frango, de lombo de porco, língua recheada, linguiça de frango e sarapatel (minha próxima investida).

Aliás, no quesito linguiça, há outros dois açougues: do Padinha e do Salvador. O primeiro, talvez o mais bem montado da cidade, sobretudo para churrascos, produz uma linguiça fina, soberba na forma frita ou assada. Salvador capricha na pimenta em uma sua, que, no entanto, me parece um pouco carregada na gordura.

No Mercado Municipal, onde se localiza o açougue do Norton, há também o do Chakib (não sei se a grafia é esta), que faz uma deliciosa cafta, que já trouxe para Niterói, depois de experimentá-la, assada, no pé-sujo do Melado. É tão boa quanto a do Al Khayam, do Beiruth, do Damasco, do Cedro do Líbano, no Rio de Janeiro. E infinitamente mais barata: oito reais o quilo.

Por falar em comida árabe, há um restaurante, sem nome, sem letreiro, na rua que margeia o córrego Santo Antônio, referido como Quibe, de propriedade do libanês Assad, casado com uma moça da terra, que para lá foi morar. Quem faz a comida é a esposa dele, mas é de um sabor inesquecível: o homus-bi-tahine, o quibe cru, o quibe frito com carne ou com coalhada (labne), o charuto de repolho (merche) e a cafta. Não há nada mais ou menos: todos são deliciosos. E só abre a partir das dezenove horas.

No centro da cidade, na Rua Direita, há o bar Kiskina, com chope e salgados fresquinhos a toda hora. Os fregueses devoram espetinhos de frango empanado, quibes, pastéis, italianos, pizzas e, aos sábados, frango assado aos pedaços, cujo cheiro se espalha pela rua e é praticamente irresistível.

No Mercado Municipal, há um bom número de botequins pés-sujos que, entre uma dose de pinga e um copo de cerveja, servem uma grande variedade de tira-gosto: pastéis, quibes, bolinho de mandioca, pele de porco, torresmo, língua assada, passarinha, miúdos cozidos, caldo de feijão, bifes de carne de porco e de boi, cafta do Chakib assada, angu molinho com sarapatel. E ainda permitem que os fregueses façam seu próprio churrasco em grelhas oferecidas para isso.

No entanto, o pequeno bar do Marquinhos e de dona Eliane, na Rua João Pessoa, é imbatível nos sabores. Dona Eliane é uma cozinheira de muitos méritos, e tudo aquilo em que põe suas mãos mágicas sai no mínimo saborosíssimo: jiló recheado, costela com batatas, rabada, dobradinha com feijão branco, fígado e moela de frango cozidos e ao molho, pedaços de frango fritos, mocotó com legumes e, às sextas-feiras, um joelho de porco cozido que não há eisbein que vença. Vou aproveitar para dar um recado para o venerável Bar Luís: Ô, Bar Luís, o joelho de porco de dona Eliane é mais gostoso que o seu eisbein! E olhem que o eisbein do Bar Luís é soberbo – já o comi algumas vezes.

Marquinhos tem reservada para os que conhecem uma cachaça de excelente qualidade, cuja origem ainda não me revelou. Mas é só pedir “a da diretoria”, para que ele lhe sirva em copinho apropriado um néctar de cor âmbar, de paladar especial. Enquanto as servidas nos bares do Mercado Municipal pequem pela qualidade, a oferecida pelo Marquinhos está em outro patamar.

Para que meu prezado leitor não tenha uma indigestão, paro por aqui. Mas volto numa próxima oportunidade, porque há mais coisas a revelar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s