VIZINHOS

1. BUNDA QUE MAMÃE LIMPOU VAGABUNDO NENHUM PÕE A MÃO

Hoje à tarde, quando, depois do almoço, tirava aquela pestana, como se dizia, fui acordado pela sequência de gritos que me pareceram vir de um menino talvez com seus quatro/cinco anos:

– Mãe, já acabei!

E a frase tanto se repetiu, que começou a ser um grito de socorro, principiando a virar um choro:

– Mãe, já acabei!

Depois, talvez, da décima vez em que o pirralho emitia seu grito, tive ganas de chegar à janela que dá para a área interna entre o meu edifício e o vizinho, para também pedir à mãe que acudisse o pobre menino.

No entanto isso não foi necessário, porque, em seguida, ouvi-o dizendo aos berros:

– Para! Você não vai limpar a minha bunda!

Como estou aposentado e tenho tempo de ficar pensando bobagens, me dei o trabalho de imaginar o que pode ter havido, para que ele protestasse com tanta veemência.

Primeiro, aquele seu irmão mais velho que lhe prometera vingança por alguma coisa que ele fizera há pouco:

– Você vai se ver comigo!

E ele, diante da hipótese de que o irmão fosse descontar exato naquele momento, deu seu grito de protesto. Ele estava completamente desprevenido e não poderia defender-se.

Segundo, a mãe impossibilitada de atendê-lo com rapidez, solicita à empregada que, no instante, ralava uma cebola para o empadão do lanche da tarde, que o fizesse em seu lugar. Maria chega à porta do banheiro com o ralador na mão. A imagem é esta: a Maria com o ralador sujo de cebola triturada à mão, quase a de Freddy Krueger em seus piores momentos.

Numa ou noutra hipótese, ele tinha toda a razão:

– Para! Você não vai limpar a minha bunda!

2. OSVALDO NÃO DEU UM PIO!

Aliás, esse espaço – a área interna entre os dois prédios – reverbera os problemas que se dizem a voz mais alta.

Há uns dois meses, eu ainda não dormia por estar vendo o último jornal televisivo da noite, quando ouvi a possível discussão entre marido e mulher. Digo possível, porque na verdade não houve discussão: só ela falava.

– Onde você andava até esta hora, Osvaldo? O que é que está havendo? Me diz, Osvaldo, por onde você andava até estas horas? Você não me ama mais? Diz, anda! É melhor me dizer a verdade! Eu não aguento isso! Venho embora cedo pra casa e você só chega a estas horas! Deixo de ir tomar um chope com as amigas, para estar com você e por onde você anda? Você não me ama, não é Osvaldo? Tenha a hombridade de confessar que você não se interessa mais por mim, que não sente mais nada por mim! Será melhor ouvir isso, do que aguentar você me tratando deste jeito!

E muito mais repetiu!

Não sei se o Osvaldo foi embora ou se tomou tenência na vida. Na hora, no entanto, não deu um pio. Estava mais sujo que pau de galinheiro, que tábua de chiqueiro, que chão de curral. Eu podia sentir a sua cara no chão naquele momento.

E, em tais circunstâncias, tudo que dissesse seria usado contra ele nas barras dos tribunais.

Imagem em listas.terra.com.br.

3. A DESAFINADA DO REGATAS

Às quartas e sextas, ocorre no clube ao lado – o Regatas de Icaraí – uma seresta, que começa por volta das oito e meia e vai até a meia-noite religiosamente.

Minha mulher faz a maior pressão, para que eu a acompanhe e ela fique curtindo essas músicas tão estranhas, que falam de dor de cotovelo, choram separações, lamentam desencontros, suspiram por amores impossíveis em boleros e sambas-canções, sobretudo. Em português e espanhol, talvez portunhol.

Até o momento em que escrevo estas bem traçadas, tenho resistido. Acho seresta um troço horroroso. Gosto de música, mas não de uma enxurrada de tal tipo.

Mas há, entre os cantores da noite, além de um que imita descaradamente Nelson Gonçalves, uma mulher, cuja voz já lhe denuncia certa idade e que desafina que é um despropósito.

Assim, toda vez em que ele entra cantando, chamo a atenção de minha mulher:

– Viu! Ainda bem que não estamos lá e só ouvimos a desafinação à distância.

Ela reconhece que, enfim, tivemos certo lucro em não ter ido, mas já me disse que a desafinada se apresenta sempre às quartas. De modo que a ameaça ainda permanece para as sextas-feiras.

Como, todavia, tenho o santo forte – embora seja agnóstico (Vá-se entender o transcendente!) – a mulher já apareceu por duas sextas seguidas.

Agora estou com esta vantagem: nunca se sabe quando ela aparecerá. Já imaginaram a maçada: pagar couvert artístico para vê-la desafinar!

Minha mulher anda protestando. Eu lhe disse que a cantora é muito assídua, porque está querendo pegar o tom das músicas que destrói.

Tomara que não o encontre nunca!

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