A BOLÍVIA ME OFERECEU ASILO (fábula andina)

Engraçado como a vida nos dá compensações que nem imaginamos, nos momentos mais aflitivos por que passamos.

Foi só estampar aqui no blog que estava tentado a pedir asilo político, em virtude das vergonhas nacionais, e eis que recebo um telefonema de La Paz, vazado em portunhol, de calibrado membro (epa!) do governo daquele interiorano país (É só porque não tem mar, hem!) que se equilibra sobre a Cordilheira dos Andes.

Nunca pensei que receberia tal deferência, tanto tempo depois de minha ida lá.

Pelo menos, em janeiro de 1976, à guisa de lua de mel (?), eu e Jane, mochilas nas costas, nos embrenhamos pelo país. É certo que nos acompanhavam os amigos Eduardo Campos, e sua então namorada Marília e Rogério Barbosa, de franco-atirador (não fiquem maldando, pensando bobagens).

Naquela oportunidade, fomos muito bem recebidos pelo povo boliviano, muito simpático, porém um pouco retraído. Com exceção de um oriental, como os descendentes dos antigos incas gostam de ser chamados (Se você for lá, não os chame de índios, que dá problema!), que, na praça principal de Cochabamba – a Colón – , num momento de preguiça, se dirigiu a mim e solicitou que fizéssemos uma foto juntos, cumprimentando-nos, para que se fixasse em papel fotográfico “la amistad lationoamericana”, como fez questão de frisar.

Plaza Colón, Cochabamba (imagem em mirabolivia.com).

Tenho a foto perdida nos meus guardados.

Pois então, como dizia, toca o telefone de minha casa. Após o tradicional Pronto!, ouço do lado de lá da linha:

– Señor Mejo!

– Aqui não tem senhor mejo nenhum. Deve ter caído errada a ligação.

– Señor Sancler Matchado de Mejo!

Bom, aí era comigo mesmo! E reconheci a possível pronúncia de meu nome por um falante de espanhol.

– Ah, bom! Aí sim, sou eu!

– Jo soi el primero secretário del señor pressidente del Estado Plurinacional de Bolíbia.

Levei alguns segundos para compreender que se tratava do nosso vizinho encrenqueiro e marrento, que anda aprontado das suas. E tentei entrar no clima linguístico:

– Pués no, señor! – meu espanhol não é reciclado desde aquela visita.

– Nuestro pressidente ha leído tu blogue y se me lo (Espanhol põe pronome sem o mínimo critério!) mandó a hacer esta ligación para Us. (Falou com a abreviatura.) para se lo ofrecerle (Olha os pronomes aí outra vez!) el asilo político almerrado. Us. será mui bién recebudo en nuestro bejo pais.

– Gracias, muchas gracias, señor secretario! Quales sones las condiciones que se me lo errirren (Resolvi também gastar os pronomes e aportunhalar exigem, se é que me entende, leitor!) para esso.

E quando, tentando pronunciar a língua de Cervantes adaptada aos Andes, falei esso, temi que ele entendesse Esso e fizesse ilações precipitadas de que eu estaria fazendo ilações maldosas acerca da Guerra do Chaco e o papel das petroleiras Standard Oil e Shell no conflito. Veio-me à mente a estátua do Herói da Guerra do Chaco, fuzil à mão, tombando na avenida principal de La Paz.

Ele, no entanto, não levou para este lado e me disse que não haveria nada a exigir de mim, a não ser que eu aceitasse a oferta em “nombre de la amistad lationoamerica”.

Então a ficha me caiu e percebi que aquele oriental a quem eu dei a mão em cumprimento na Plaza Colón de Cochabamba, numa tarde modorrenta de janeiro de 1976, tinha chegado ao cargo de secretário do presidente.

– Es Manuel de Cochabamba de mil novecientos seteinta sés?

– Pero, si, mi amigo!

E só não chorei, porque me lembrei da nacionalização da Petrobrás boliviana por seu governo e o aumento do preço do gás natural, que encareceu sobremaneira meu banho quente.

Tratei de arranjar uma desculpa aceitável:

– Caro Manuel, agradesco la oferta, pero no se lo me será possible acceptala, porque mi murrer Jane – se lo te recuerdas de eja? – sufre de asma e tu bejo país es carente de aire, sopratutto (Aí misturei o italiano!) em tu beja capital, La Paz. Quando aiá estuviemos, no había aire para eja. Muchas gracias, amigo! Recomendaciones a tu refe, el señor…

Aí a ligação caiu, ou ele desligou, contrariado com minha recusa.

Tenho a impressão que “la amistad latinoamericana” foi para os píncaros da Cordilheira. E isto pode piorar ainda mais os ânimos por lá!

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NOTA: Esta história não tem qualquer relação com o recente pedido de asilo político do senador boliviano Roger Pinto Molina (que nome!), que está refugiado na embaixada brasileira em La Paz. Mas, se tiver, também não fará a mínima diferença.

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