VIAGENS NA MINHA TERRA

Terminei de ler Viagens na minha terra*, obra do escritor português do século XIX Almeida Garret, considerado o fundador do Romantismo em língua portuguesa com seu poema Camões.

Garret é um dos autores básicos nos estudos de Literatura nos cursos de Letras. Dele já havia lido, nos tempos acadêmicos, O arco de Santana e alguns poemas. E tinha, dentre minhas dívidas para com a arte da palavra, a leitura desta obra do escritor luso.

A arte tem a capacidade de gerar obras que ultrapassam o tempo. Esta é uma delas.

Viagens na minha terra, que relata a viagem que o autor empreendeu entre Lisboa e Santarém em 1843, é uma interessante mistura de narrativa de viagem, romance e autobiografia, com pitadas de humor, ironia e crítica. E, com a linguagem típica do século e da escola literária, o autor faz uma análise corrosiva da vida literária, social, política e econômica portuguesa, com a lucidez das inteligências aguçadas.

Por isso, selecionei algumas passagens para os meus leitores que não o conheçam.

Aí vão elas.

1. Dizia um secretário de Estado, meu amigo, que para se repartir com igualdade o melhoramento das ruas de Lisboa, deviam ser obrigados os ministros a mudar de rua e bairro todos os três meses. Quando se fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as calendas gregas, eu hei de propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino de Portugal ao menos uma vez cada ano, como a desobriga. (p. 26)

2. E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignomínia crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. (p. 28)

3. […] cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis. (p. 28)

4. “Rei que nos enforque e Papa que nos excomungue nunca há de faltar.” (p. 48, pela boca de um de seus personagens)

5. Como, sem Porto ou Madeira, sem Lisboa, sem Cartaxo, ousa um súdito britânico erguer a voz, naquela harmoniosa desafinação insular, que lhe é própria e que faz parte de seu respeitável caráter nacional? (p. 50, crítica sobre os ingleses, então aliados de Portugal)

6. O que é um inglês sem Porto ou Madeira, sem Carcavelos ou Cartaxo? (p. 50, idem)

7. Toda guerra civil é triste.

E é difícil dizer para quem mais triste, se para o vencedor, ou para o vencido. (p. 53)

8. Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices. (p. 126)

9. Detesto a filosofia, detesto a razão; e sinceramente creio que num mundo tão desconchavado como este, numa sociedade tão falsa, numa vida tão absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituições, as conveniências dela, afetar nas palavras a exatidão, a lógica, a retidão que não há nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as incoerências. (p. 194)

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*GARRET, Almeida. Viagens na minha terra. 3. Ed. São Paulo, Martin Claret, 2003.

Capa do livro da editora Martin Claret.

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