MUNDO, MUNDO, VASTO PEQUENO MUNDO

Lembro-me de que, quando fazia o curso de Letras entre 60/70 do século passado, ao fazer o estudo da poética de Carlos Drummond de Andrade, os alunos eram colocados diante da duplicidade de sentimentos expressa pelo poeta ao confrontar seu coração com o mundo.

No poema de abertura do livro Reunião, que enfeixa dez livros do autor, estava expresso lá:

                        “Mundo mundo vasto mundo,

                        Mais vasto é o meu coração.”

                                               (Poema de sete faces, de Alguma poesia, p. 3)

Mais adiante, ele inicia o poema Mundo grande, afirmando:

                        “Não, meu coração não é maior que o mundo.

                        É muito menor.”

                                               (de Sentimento do mundo, p. 60)

Manifestava assim a dubiedade da percepção do espaço geográfico, segundo o sentimento do poeta.

E todos os comuns dos mortais – não necessariamente o grande poeta Drummond – são levados a, em momentos diversos, verem o mundo ora muito vasto, ora muito pequeno.

Eu mesmo já tive provas disso, por algumas vezes. Ou daquilo que o sentimento popular classifica como “mundo pequeno”. O que propicia, sobretudo, encontrar, em lugares improváveis, pessoas improváveis.

Em fevereiro de 1975, eu e Jane, à época minha namorada, fomos passar o carnaval em Salvador. Resolvemos almoçar no Mercado Modelo. À entrada, encontramos com Paulo Mattos, então noivo de minha prima Ana Maria, que a levara para conhecer sua família baiana, ele que já morava há algum tempo no Rio de Janeiro.

E exclamamos quase em uníssono: Eh, mundo pequeno!

Imagem em pessoas.hsw.uol.com.br.

Pois hoje tivemos mais um exemplo de como este vasto mundo pode ser tão pequeno.

A menina Brenda, que tinha desaparecido de sua mãe numa igreja na capital paulista, foi encontrada, após ser reconhecida por um funcionário de lanchonete.

O raptor da pequena de quatro anos entrou com ela, ao colo, para pedir comida. O atendente que a reconheceu mora na mesma rua em que ela mora e avisou seu patrão.

E a menina voltou para sua mãe.

Alguns podem dizer que foi a providência divina, de que a mãe, crente, deve ter-se socorrido, a autora da volta de Brenda para casa. Não discuto isso.

Mas se, por vezes, este vasto mundo não se fizesse tão pequeno, não seria possível o encontro de Brenda com seu vizinho, numa pequena lanchonete localizada numa das maiores metrópoles do planeta, com seus quase onze milhões de habitantes, espalhados por mil e quinhentos quilômetros quadrados de área.

Pode ter sido um milagre. Mas também o milagre de uma geografia toda especial, que espicha e espreme o espaço em que vivemos, para que nosso coração abarque, com folga, o grande espaço que ele parece ter.

———-

* ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1971

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