CIRLENE FUNERÁRIA

Ontem, saí à rua, a fim de comprar, na padaria da esquina de Moreira César com Miguel de Frias, pão fresquinho para o café da tarde, e encontro em frente à Reitoria da UFF meu amigo e ex-colega de trabalho Assed.

– E aí, Assed? – perguntei com certo espalhafato de festa, pois, embora vizinhos de prédios, não o via há uns dias.

E ele, com seu jeito expressivo de falar, semblante um tanto fechado:

– Encontrei com Cirlene Funerária!

– Puta merda, quem morreu?! – exclamei perguntando, pois já sabia o enredo da história e deduzi a personagem.

Cirlene é também nossa colega de trabalho. Rigorosamente, ex-colega, já que nós três estamos aposentados. Eu e Assed entramos no mesmo concurso público de 1969, ainda no antigo Estado do Rio de Janeiro, anterior à fusão. Cirlene, um pouco mais velha que nós, já lá estava, ao tomarmos posse. Por isso se aposentou um pouco antes de nós.

Assed e eu nos esbarramos quase sempre, por sermos vizinhos. Cirlene mora um pouco depois, quatro ou cinco esquinas após, e só a vemos vez ou outra.

Ela é uma daquelas pessoas que sabem tudo do antigo trabalho, pois está sempre antenada com as notícias, as novidades e as informações sobre os antigos colegas de repartição. Tem o tom de voz um pouco acima da média normal. Poderia dizer que ela é do tipo esporrenta e fala o que tem direito, sem muito freio, num atropelo só de frases a lhe saírem da boca, como em cascata. O que, no fundo, não constitui um defeito, senão uma característica pessoal.

A despeito disto, é uma pessoa afável, simpática e carinhosa com todos os antigos colegas. E gosta muito de fazer programas de entretenimento, como ir a teatro, a shows, sempre em companhia de outra ex-colega, Sonja, que, para não ficar no ócio, resolveu montar prestadora de tal tipo de serviço. Eu e minha mulher já a encontramos todas as poucas vezes em que nos valemos deste serviço.

No entanto, ultimamente, dada a faixa etária em que nos metemos, Cirlene tem-se especializado em dar notícias de morte de nossos companheiros aposentados, o que faz em qualquer lugar, com o esporro de sempre: na rua, no mercado, na quitanda, onde comumente a encontramos.

– Sabe quem morreu?

E lá vem mais uma notícia funerária da boca de Cirlene.

Por isso é que – acho – Assed resolveu atribuir-lhe este apelido nada abonador: Cirlene Funerária.

– Quem morreu, Assed? – perguntei logo em seguida ao meu espanto inicial.

– O Levi!

Então lamentamos ali, em frente à Reitoria da UFF, a morte de um colega de trabalho amigo de todos e, portanto, muito querido, que, na chefia do serviço de protocolo do antigo Tribunal de Justiça do Estado, tinha na memória o andamento de todos os processos que por seu setor passassem, antes mesmo que os computadores nos viessem prestar o serviço inseguro que ora prestam. Com Levi, não havia falta de energia que o impedisse de informar ao consulente o destino de cada auto processual.

Todavia foi só despedir-me de Assed e seguir em frente, para começar a dar gargalhadas quase incontroláveis – até tive receio de que me achassem maluco – ao pensar no apelido que ele dera para nossa amiga (Como meu pai, Assed é habilidoso nesta arte!): Cirlene Funerária.

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Nota: Alterei os nomes das personagens vivas, para não arranjar encrenca para mim. Caso contrário, ao morrer, teria minha vida desabonada por Cirlene.

(Ilustração colhida em laforetflores.com.br.)

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