EU SÓ QUERIA ENTENDER

Às vezes sou como aquele macaco do antigo humorístico da tevê Planeta dos Macacos, que dizia sempre: “Não precisa explicar; eu só queria entender”.

Há coisas neste nosso país varonil que ficam um pouco acima da minha modesta compreensão das coisas.

Devo confessar-lhes que sou um tanto curto de entendimento para as chamadas ciências, as quais, modestamente, classifico de falsas verdades ou verdades transitórias. Tudo isso porque a própria Ciência (agora com letra maiúscula) passa o tempo todo a se desmentir, a alterar seus postulados, a inverter seus conselhos, a refazer previsões, a estabelecer novas leis.

Diferentemente de um texto de ficção – uma boa prosa ou uma pertinente poesia, com milhares de anos de existência, tem validade até hoje -, o texto científico e seus preceitos caducam de uma geração para outra. Às vezes, até com mais rapidez que uma geração.

Se examinarmos, por outro lado, alguns fatos da nossa realidade nacional, ficamos sem entender nada, como o tal macaco.

Há alguns dias, li manchete de jornal que noticiava a concessão de bolsa família no valor de R$1.330,00 a uma família composta por dezenove membros, em atendimento à nova política do governo federal no combate à miséria, que determina o valor de R$70,00 por cada membro familiar.

Ora, bolas! Isto é mais que o dobro o salário mínimo nacional!

Que diabo de conta é essa do governo que obriga o cidadão a trabalhar o mês inteiro, para no final receber $622,00, brutos – limpos, na mão, apenas R$572,24 (se não me falha a matemática) – e dá de mão beijada para um casal que fica em casa fazendo filho – dezessete, pois não? – R$1.330,00?

Aí é melhor ficar em casa, mandando ver na patroa, porque ganha mais do que se fosse carpir roça, furar poço, ou dar banho em cachorro em petshop.

Ontem meu filho, que participou de uma ação social coordenada por sua esposa e sua sogra, em favela de Gramacho, disse-me um tanto espantado que conheceu uma jovem mulher da comunidade, de vinte e cinco anos, com cinco filhos e mais um no ventre, preste a botar a cara no mundo.

Não estou aqui nem cogitando do desvio na aplicação das verbas do Bolsa Família. De vez em quando, sabemos de apaniguados de autoridades recebendo os caraminguás que se destinam aos miseráveis. Não quero dizer isto agora.

Penso apenas neste disparate: quem trabalha recebe R$622,00; e esta família ganha R$1.330,00.

Quando o governo Lula teve a iniciativa de criar esse tipo de socorro urgente, muitos aplaudiram. Eu, mesmo! Era necessário intervir urgentemente para tirar milhões de brasileiros da mais completa penúria.

Tenho a impressão de que ninguém pode ser contra tal tipo de iniciativa governamental em caráter emergencial.

Contudo o que se percebe é que o governo continua dando o peixe, quando deveria dar a vara de pescar e a técnica para usá-la.

O governo deveria criar meios, para que não precisasse distribuir dinheiro de mão beijada para milhões de patrícios, que recebem, na verdade, uma esmola oficial. Aliás, uma razoável esmola!

Luiz Gonzaga, que este ano estaria completando cem anos, vivo fosse, em uma de suas músicas – Vozes da seca – diz com todas as letras dos versos do parceiro Zé Dantas esta verdade:

Seu doutô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas doutô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão
É por isso que pidimos proteção a vosmicê
Home pur nóis escuído para as rédias do pudê
Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chovê
Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê
Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage
Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage
Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage
Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage
Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!
Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo neste chão
Como vê nosso distino mercê tem nas vossa mãos

Se Luiz Gonzaga e Zé Dantas já entendiam assim, porque eu sou tão limitado para entender?

Simplesmente porque o que eles dizem é da mais profunda sabedoria. É o que Lao-Tsé já dizia, quinhentos anos antes de Cristo, com aquela história do peixe e da vara de pescar:

“Se deres um peixe a um homem faminto, vais alimentá-lo por um dia. Se o ensinares a pescar, vais alimentá-lo toda a vida.”

A nossa vara de pescar é o programa Bolsa Família. O peixe nois compra na feira.

Imagem em jornalvivabrasil.com.br.

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